quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um 'Threshold' para a velocidade no Trânsito


Mês passado levantei um ponto sobre a polêmica de flexibilização do horário da Voz do Brasil. Pois bem, desde então tenho me dedicado a ouvir com boa vontade o Jornal oficial. E tenho de admitir que algumas informações são interessantes e "as vezes" a matéria quando coloca mais de um ponto de vista, não só aquele o do deputado autor do projeto, fica boa.*

Foi esse o caso da reportagem do jornal da câmara de hoje (15/09/2010) que apresentou a polêmica do deputado José Airton Cirilo (PT-CE). Que apontou um argumento bastante escutado no senso comum, de que os radares de trânsito para controle da velocidade ficam escondidos em pontos estratégicos para gerar máxima arrecadação e não para educar.

Sim, já cansei de ouvir dos taxistas que é uma sacanagem colocar radares escondidos e em pontos de descida onde a velocidade é maior. Eu mesmo, que gosto de aproveitar descidas para economizar gasolina, não gosto deles. E sim, uma empresa com objetivo de lucro vai colocar radares que maximizam receita.

O projeto do deputado é de que não haja nenhum radar sem a referida sinalização. Pode haver radar desde que sinalizados. Bem, o jornal trouxe o contraponto do prof. Paulo César Marques da Silva da engenharia civil e ambiental da UnB. O ponto contrário é o de que esse projeto encara o radar como mero redutor de velocidade, uma espécie de "quebra-molas" ou contrle eletônico de velocidade, a sinalização do local faria com que os motoristas reduzissem apenas ali no ponto.** O prof. bem lembrou que o radar tem função de fiscalizar o trânsito e de que a velocidade vale para toda a via. E pensando dessa forma, o local onde o radar está é indiferente, pois os motoristas deveriam trafegar dentro do limite da via durante todo o trajeto.

Mas como todo motorista observador deve saber, o que ocorre com os radares de aviso é que a maioria dos motoristas só diminuem a velocidade na presença do radar, quem gosta de correr pisa no acelerador logo depois de passar o "pardal" e até os que andam na velocidade mediana aceleram um pouco. O que ocorre aí não é tanto um problema de onde está um radar, mas sim qual é a velocidade de trafego que se impôe na via.

Há vias de 60Km/h que se pode desenvolver com segurança a 70Km/h. E em alguns casos é possível encontrar vias em que o limite máximo está muito acima daquele que seria seguro A pergunta interessante é: seria viável em termos de tempo andar sempre a 60Km/h nas vias viscinais de pista dupla ou tripla? Em muitos casos as pessoas parecem concluir que não, e então desenvolvem uma velocidade um pouco maior a maior parte do tempo.

Em Brasília, um bom exemplo é a L5. A L5 é um samba do criolo doido, tem trechos em que o limite está visivelmente acima do que seria bom para a segurança e em outros que está visivelmente abaixo. Os eixinhos são também bons exemplos, creio que quase metade dos motoristas desenvolve ali velocidade acima de 60Km/h. No eixo munumental (seis pistas e velocidade de 60Km/6) e nas vias para o Guará I e II, Aguas Claras e demais pontos, nem se fala.

O que cabe, então, para as vias e radares é adotar limites de velocidades flexíveis de acordo com cada trecho. Isso vai contra o Código Nacional de Trânsito, que tem uma lógica própria para os limites de velocidade em cada tipo de via. Estradas, avenidas principais, viscinais, alamedas, etc... Mas o que ocorre é que esses limites estão ultrapassados. A estatística e a tecnologia podem nos ajudar muito nesse quesito de estabelecer a velocidade mais apropriada.

O que a sociedade tem que estabelecer é qual o limite de velocidade julga tolerável e qual é o limite do muito arriscado. Imagine que vamos observar 1.000 carros durante uma hora em um trecho sem radar e com fluxo normal do eixo L em Brasília. Bom, eu criei um processo gerador de carros baseado em um Poison com média 60Km/h e apliquei um pequeno distúrbio, considerando um pequeno grupo de 1% que gosta de dirigir a uma média de 90Km/h.

Em uma das realizações, o motorista que passou mais lento obteve uns 32 Km/h e o mais rápido passou a quase 90Km/h (devia estar pensando que estava no eixão). O gráfico abaixo mostra o número de carros em cada segmento.

Nessa situação a velocidade média foi realmente de 60.1Km/h, a mediana ficou aí perto e o desvio padrão em torno de 8Km/h. O interessante é a sociedade decidir a quem deve punir: os 20% mais apressadinhos, os 10%, os 5% ou apenas aqueles 1%?! O limite de velocidade não deve ser a média, pois assim, o radar passa a funcionar como uma barreira e há casos onde uma simples barreira é melhor do que o radar (próximo de escolas por exemplo).

Se escolhessemos multar os 20% acima o limite do exemplo seria 67.2 (o que é muito próximo da realidade, já que os radares têm uma tolerância de 10%).

Se escolhessemos multar só os 10% acima, o limite deveria ser 71Km/h. E para o caso de 5% e 1% as velocidades de tráfego seriam 74Km/h e 81.4Km/h, respectivamente.

Nessa proposta, a grande sacada não é colocar um limite de velocidade para toda a via que seja algo próximo da média e avisar o motorista quando tem radar, mas sim adotar um limite mais factível para toda a pista e pegar quem realmente estava correndo. Dessa maneira seria tanto melhor se os radares fossem ocultos, pois assim, com uma proporção adequada de captura dos infratores, os indivíduos respeitariam mais o limite da velocidade.

E as companhias de trânsito, tentando adotar uma estratégia de maximização de lucros fariam um serviço social, já que seria de seu interesse se esforçar para pegar motoristas trapaceiros do limite. A sociedade teria de estar sempre de olho para a companhia não alterar o threshold estipulado para cada trecho.

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* Meu porém, então, só fica pela falta de opção no horário o que não é um bom princípio. É como chegar no supermercado e ter apenas um tipo deproduto para escolher.

** Os radares são muito melhores do que os quebra-molas pelo seguinte princípio: no quebra-molas todos pagam pelo comportamento de uns poucos que gostam de correr. Mesmo o indivíduo que trafega dentro do limite, terá de freiar. No radar paga somente aquele que infrigiu a lei, o custo não recai sobre todos os motoristas.

OBS_1: A rotina está disponível nos comentários.

OBS_2: A geração de dados aleatórios que desenvolvi pode levar ocasionalmente a valores extremos como 140 Km/h com alguma probabilidade e o histograma vai ficar um pouco "achatado". Mas não se assuste, a rotina continua valendo.

Um comentário:

Victor M Senna disse...

# Rotina para replicar a brincadeira dos carros

carros <- round(jitter(rpois(1000,60),20)+ rbinom(1000, 1, 0.001)*rnorm(1000,90,0.5),1)
min(carros)
max(carros)
hist(carros, xlab="velocidade", ylab="frequência de carros", main="Velocidade dos carros em determinado trecho de via")
mean(carros)
median(carros)
sd(carros)
q <- seq(0,1, by=0.05)
quant <- round(quantile(carros, prob=q),1)
quant

hist(carros, xlab="velocidade", ylab="frequência de carros", main="Limites Threshold para Radares de Trânsito")
segments(quant[17],0,quant[17],300, lty=2, col="blue", lwd=2)
segments(quant[19],0,quant[19],300, lty=2, lwd=2)
segments(quant[20],0,quant[20],300, lty=2, col="purple", lwd=2)
segments(quantile(carros, prob=0.99),0,quantile(carros, prob=0.99),300, lty=2, col="red", lwd=2)
text(quant[17],-5,quant[17],col="blue", cex=.7)
text(quant[19],-5,quant[19], cex=.7)
text(quant[20],-5,quant[20],col="purple", cex=.7)
text(quantile(carros, prob=0.99),-5,quantile(carros, prob=0.99),col="red", cex=.7)