sábado, 11 de agosto de 2012

As medalhas e as preferências lexicográficas

Um dos tópicos de estudo da microeconomia na teoria do consumidor é o das preferências lexicográficas, são assim chamadas porque derivam de "lexico", que é o conjunto de todas as palavras de uma determinada língua. E lexicografia é a técnica de composição de um dicionário. Em nossa cultura greco-romana, um dicionário é composto pela ordem das palavras de acordo com o Abecedário do tipo {A, B, C, ..., Z}, ele determina as preferências de ordem em um dicionário: primeiro sempre o 'A', depois o 'B', em seguida o 'C' e assim por diante... Um dicionário, portanto, obedece uma ordem estrita onde qualquer palavra que comece com 'A', não importa quão importante ou desimportante ela seja no nosso uso cotidiano, deve sempre vir antes de uma palavra que comece com 'B'.

Dessa maneira, algumas preferências do dia a dia podem ser lexicográficas. Digamos que você prefira sempre chocolates à goiabada. Sendo assim, supondo preferências lexicográficas, em uma situação de escolha entre muita goiabada, e qualquer quantidade de chocolate (mesmo que mínima), você sempre preferirá o chocolate. Mesmo que seja uma lata de 500g de goiabada versus um bombom de chocolate de apenas 30g. Não quer dizer que você não goste de goiabada, mas simplesmente que diante da escolha, você irá preferir sempre o chocolate.

Depois de esgotado todo o chocolate que você puder obter, você poderá passar à goiabada. E talvez depois da goiabada, às balas de iogurte, se assim for sua preferência.

Muitas vezes, os alunos acham essas preferências pouco factíveis, ou muito difíceis de serem visualizadas ou interpretadas. Elas não podem ser representadas graficamente pelas curvas de isoutilidade. Isoutilidades para as preferências lexicográficas seriam, quando possíveis, representadas por um único ponto e não como uma reta ou curva como é usual. Mas, na verdade, preferências lexicográficas podem ser mais comuns do que imaginamos. Esse tipo de preferência aparece sempre quando preferimos que uma coisa seja feita primeiro, ou quando temos uma preferência categórica sobre determinado bem ou atitude. Podemos pensar que preferimos primeiro "comer" e depois "escovar os dentes", isso é uma preferência lexicográfica para determinadas janelas de horários do dia. Se você encara "comer" e "escovar os dentes" como substitutos, você deve ser um cara meio estranho, e de outra forma, escovar os dentes primeiro e comer depois não parece ser uma preferência lexicográfica muito plausível, embora há os que prefiram a seguinte ordem: "escovar", "comer" e "escovar".  De outra forma, para um dia inteiro, pode-se encarar essas atividades como complementares perfeitos, mas para pequenos períodos, você consideraria que a ordem entre essas duas coisas importa.
Entretanto, o exemplo acima pode ainda não esclarecer totalmente esse tipo de preferências, ele mistura saciedade, curtos horários de tempo, e alguns outros fatores que se tem que controlar para que seja de fato uma preferência lexicográfica antes do ponto de saciedade. Então, o exemplo que mais gosto de usar é o do quadro de medalhas de uma olimpíada. Vejamos a seguinte situação final do quadro de medalhas das olimpíadas de Londres:


__. País_______O P B T
50. Venezuela_ 1 0 0 1
55. Índia_____ 0 2 4 6
56. Mongólia _ 0 2 3 5
57. Tailândia_ 0 2 1 3
58. Egito_____ 0 2 0 2
59. Eslováquia 0 1 3 4

Pela hierarquia de classificação usual do quadro de medalhas das olimpíadas, as medalhas de ouro sempre são preferíveis a qualquer medalha de prata, e é por isso que a Venezuela com uma medalha de ouro está a frente da Tailândia com 2 medalhas de prata e 1 de Bronze (3 no total). Até o último dia das olimpíadas, Venezuela estava na frente de Colômbia e México (que ainda não tinham tido suas medalhas de ouro, o México inclusive ganhando do Brasil na final do futebol). Mas quantas medalhas de prata ou de bronze valem uma medalha de ouro? Ou seja, existe preço para trocar uma medalha de ouro por algumas de prata?

- Não. A tendência seria dizer que o preço da medalha de ouro em termos de medalha de prata é infinito. 

Não há nada que possa tirar a Índia (que possui um total de seis medalhas) debaixo da Venezuela, a não ser uma medalha de ouro. Caso a Índia consiga uma medalha de ouro, ela pularia para a posição 41, logo abaixo do México e acima da Irlanda (salto significativo). Essa relação hierárquica muitas vezes parece férrea demais. Nas olimpíadas de Pequim em 2008 um fato curioso ilustra essa percepção. Naquelas olimpíadas, a China ficou à frente no quadro de medalhas durante quase todo o evento e terminou as olimpíadas em primeiro superando os Estados Unidos. No entanto, os Estados Unidos terminaram com 10 medalhas a mais. A certa altura das olimpíadas, alguns noticiários de esportes norte-americanos passaram a divulgar o quadro de medalhas pelo seu total de medalhas e não pelo número de medalhas de ouro, seguido pelas de prata e de bronze. Tal atitude foi duramente criticada, mas o que eles queriam ressaltar é que os EUA tinham 10 medalhas a mais. Isso se aplica também ao Brasil que tem mais medalhas do que a Jamaica, porém a jamaica tem 4 ouros, 4 pratas e 4 bronzes (12 medalhas). O Brasil com 3 ouros, 5 pratas e 9 bronzes (17 no total) passaria a Jamaica se ganhasse mais um ouro.

Somar o total de medalhas equivale a dizer que todas as medalhas são substitutas perfeitas, ou seja, uma medalha de bronze vale o mesmo tanto que uma medalha de ouro. Isso parece forçado, e induz a pensar que não há mérito dos primeiros colocados em seu esforço. Na final da partida de futebol de Brasil e México, por exemplo, isso faria com que os dois times não oferecessem confronto caso estivessem pensando no quadro geral de medalhas pelo total, pois a de prata equivaleria a de ouro. Por outro lado, uma pontuação dessa forma (pela soma) leva em conta que não é fácil para qualquer atleta ganhar o bronze. Estar nas olimpíadas já é para poucos, ganhar medalha é apenas para a nata do esporte. Um quadro pelo total de medalhas valoriza isso, e caso fosse assim, nessas olimpíadas nos teríamos a seguinte colocação para os 20 primeiros:*

__. País_______O _P _B _T
_01. E.U.A.____ 46 29 29 104
02. China_____ 38 27 23 88
03. Russia____ 24 26 32 82
04. Grã Bretanh29 17 19 65
05. Alemanha___11 19 14 44
06. Japão______ 7 14 17 38
07. Austrália__ 7 16 12 35
08. França_____11_11 12 34
09. Coréia Sul_13_ 8_ 7 28
__. Itália_____ 8_ 9_11 28
11. Holanda____ 6_ 6_ 8 20
__. Ucrânia____ 6_ 5_ 9 20
13. Canadá_____ 1_ 5 12 18
14. Brasil_____ 3_ 5_ 9 17
__. Espanha____ 3_10_ 4 17
__. Hungria____ 8_ 4_ 5 17
17. Cuba_______ 5_ 3_ 6 14
18. Cazaquistão 7_ 1_ 5 13
__. Nova Zelând 6_ 2_ 5 13
20. Bielorrúsia 2_ 5_ 5 12
__. Irã________ 4_ 5_ 3 12
__. Jamaica____ 4_ 4_ 4 12

O resultado acima é interessante, ele traz a Rússia acima da Grã Bretanha, por exemplo, com uma diferença considerável de 17 medalhas a mais. Essa é uma classificação que também favorece o Brasil no quadro geral que salta de 22º para 14º. A classificação que lida com as medalhas como se fossem substitutas tem um valor para os países ao comparar as olimpíadas em retrospecto. A não ser para casos em que um determinado competidor sobra em relação aos demais, tipo o Usain Bolt dos 100m e 200m rasos ou a russa Yelena Isinbayeva do salto com vara, ou o próprio norte-americano recordista Michael Phelps da natação (ou ainda a seleção hors concours do Basquete dos EUA), as competições pelo pódio são muito disputadas. Ou seja, o medalhista de bronze poderia muito bem ter ganho o Ouro. O total de medalhas é importante para ver se um país esta aumentando suas chances em relação às olimpíadas anteriores, e também muito útil para ver sobre a política de esportes de uma determinada nação, tal como os difundidos quadros de medalhas percapita.

Nós brasileiros temos de estar muito felizes com as medalhas de bronze que os atletas conseguem, elas parecem ser o suporte de um número de medalhas maior e cada vez mais consistente. Acredito que o Brasil possui uma vocação para os esportes, mas os incentivos sempre foram muito parcos. E falando isso não jogo a culpa apenas sobre as confederações de esportes e o Governo, mas também nos arranjos privados dos negócios de esportes no Brasil. Arranjos que conseguem se descolar do futebol apenas recentemente (de alguns anos pra cá, o vôlei já de algumas décadas, é verdade). A tendência para o total de medalhas do Brasil é crescente. Segue aí um gráfico com as medalhas do final das olimpíadas (No total de medalhas o Brasil superou todas suas olimpíadas anteriores ultrapassando a melhor marca de 15 medalhas).


Mas esse não seria um blog de um microeconomista se eu não dissesse que entre as preferências rígidas da maneira Lexicográfica de se ordenar as medalhas e a forma pouco exigente de encará-las todas como substitutas, há duas soluções intermediárias: 1) A primeira delas é encarar as medalhas como substitutas perfeitas, pero no mucho. Poderíamos propor um sistema de contagem em que uma medalha de Ouro vale 3 de Bronze e a de Prata vale 2. Dessa maneira, teremos a seguinte forma de contabilizar a pontuação total:

Total* = 3x(Ouros) + 2x(Pratas) + 1x(Bronzes)

A classificação final do Quadro seria:

__. País_______O _P _B _T*
01. E.U.A.____ 46 29 29 225
02. China_____ 38 27 23 191
03. Rússia____ 24 26 32 156
04. Grã Bretanh29 17 19 140
05. Alemanha___11 19 14 85_
06. França_____11_11 12 67_
07. Japão______ 7 14 17 66_
08. Austrália__ 7 16 12 65_
09. Coréia Sul_13_ 8_ 7 62_
10. Itália_____ 8_ 9_11 53_
11. Holanda____ 6_ 6_ 8 38_
12. Ucrânia____ 6_ 5_ 9 37_
__. Hungria____ 8_ 4_ 5 37_
14. Espanha____ 3_10_ 4 33_
15. Brasil_____ 3_ 5_ 9 28_
__. Cazaquistão 7_ 1_ 5 28_
17. Cuba_______ 5_ 3_ 6 27_
__. Nova Zelând 6_ 2_ 5 27_
19. Canadá_____ 1_ 5 12 25_
__. Irã________ 4_ 5_ 3 25_
20. Jamaica____ 4_ 4_ 4 24_

A maneira explicitada acima ainda é de substitutos perfeitos, agora não na proporção de igual para igual, mas em uma proporção 3-2-1. 

2) A segunda maneira de classificarmos por medalhas advém de uma das formas funcionais mais flexíveis da microeconomia, a CES (Constant Elasticity Substitution). Primeiramente pensei em usar uma Cobb-Douglas, que é ainda mais simples do que a CES, porém, ela não lidaria bem em casos de países que possuem apenas uma medalha. A CES é mais geral e flexível e não possui esse problema. Uma possível CES que podemos utilizar seria:

TotalCES = [(1/2)x(Ouros)^£ + (1/3)x(Pratas)^£ + (1/6)x(Bronzes)^£]^(1/£)

A função acima é relativamente simples, o sinal de £ é uma transformação da elasticidade de substituição dos Bens,  = 1/(1-£). Onde e é a elasticidade de substituição entre as medalhas. Quando £ = 1, teremos que a função CES acima é igual a pontuação ponderada sugerida na equação anterior, e dessa forma vemos também que e £, isso é, a substituição de uma de 3 medalhas de bronze por uma de ouro é total, uma cotação um pouco diferente disso, por exemplo se os concidadãos de um país acreditassem que uma medalha de ouro vale 4 de bronze, os levariam a desejar ter todas as medalhas em ouro. De outra maneira, quando £ = 0, nós temos uma função do tipo Cobb-Douglas e então a substituição manteria-se constante, não importando a relação de "preços".

Finalmente, com um £ = 0,8, o ranking de países por esse método não seria muito diferente da tabela acima apresentada, teríamos uma substituição da posição de alguns países. Quando £ = 1, a classificação seria rigorosamente a mesma da tabela ponderada acima. Os valores de £ podem variar, mas aderem bastante a ponderação utilizada. E por fim, pode se pensar que a ponderação final poderia ser muito bem outra diferente da sugerida, 4-2-1 ao invés de 3-2-1.

Com tudo isso, vai aqui a minha sugestão de divulgação de um quadro de medalhas ponderado, ele é simples e intuitivo e não tão forte quanto o caso lexicográfico a seguir:

__. País_______O P_ B T
01. Pais Alpha 1 0_ 0 1
__51. País Beta_ 0 50 0 50_

As 50 medalhas de prata de um hipotético pais de Beta não valem uma das medalhas de ouro de Alpha. É claro que isso não se manifesta com essa discrepância nas olimpíadas, mas casos também fortes costumam a ocorrer. Um deles é o México que já comentamos, e no caso de Sidney, em 2000, o quadro foi bastante duro para o Brasil, que não conseguiu nenhuma medalha de ouro, embora tenha se saído bem no caso das outras medalhas. Ouvi na rádio recentemente que o comitê olímpico não estimula a divulgação de um quadro de medalhas, isso para não estimular comportamentos anti-esportivos como estes, e como forma de preservar o espírito olímpico. Acho que eles estão certos, mas se a comparação é inevitável, por que não usarmos de uma forma mais ponderada?
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* Esse post foi atualizado em 01/10/2012 de maneira a incluir os dados finais de medalhas das olimpíadas de Londres 2012.

3 comentários:

Jurza disse...

Sempre pensei que seria interessante, pelo menos, valorar a medalha de ouro em 3, a de prata em 2 e a de bronze em 1. Isso pelo menos distribuiria um pouco melhor o rank de medalhas, que eu acho simplesmente idiota. Um país com 5 medalhas de prata ficar abaixo de um com apenas um ouro sempre me levou a perguntar como vc, o quanto vale uma medalha em relação à outra...

Jurza disse...

e como sempre, suas analogias são excelentes: chocolate e goiabada, simply great!

I'm a Rock disse...

O Jurza, como é que tá. Sim pois é, eu também sempre achei a relação 3-2-1, bastante razoável. Legal que gostou do post.