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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Histórico do Número de Candidatos na ANPEC

Recentemente tive de me deparar com a tarefa administrativa de procurar o número de candidatos inscritos no Exame nacional da ANPEC nos últimos anos. A tarefa que inicialmente aparentava ser fácil (eu já havia visto gráficos mostrando essa evolução anteriormente) se demonstrou mais difícil do que eu imaginava inicialmente. Isso porque a ANPEC não mantém um registro histórico fácil de ser encontrado em seu site. 

Fiquei pensando que isso pode ocorrer por conta da coordenação do exame ser itinerante. Sendo, dessa maneira, difícil manter um registro histórico de algumas informações administrativas das provas. Encontrar as provas e gabaritos anteriores é bem fácil, elas estão todas relacionadas no site, o registro remonta até o ano de 1990. Porém, resgatar o número de inscritos e de centros participantes a cada ano se mostrou uma tarefa inglória.

Sobre o número de inscritos, por exemplo, eu já sabia que a dissertação do Felipe Bardella trazia alguns dados do número de inscritos. No entanto a série do trabalho dele terminava em 2004, lá se vão 10 anos. Encontrei uma série mais atualizada e aparentemente correta nesse site aqui dada pelo blog "além das curvas". Porém a informação que consta aí vai até o exame de 2008 apenas. Após então uma tarde de muito trabalho buscando ano a ano o número de inscritos na ANPEC (até na Folha de São Paulo encontrei as informações) imagino que elas estão com um bom nível de aproximação. O resultado está no gráfico logo abaixo.

___________________Fonte: Ver o texto acima.

Então parti para buscar uma informação que achei que seria bem mais simples: o número de centros ofertantes de vagas. Que nada! A ideia inicial era consultar os manuais do candidato e ver quantos centros constavam na relação de cada ano. Mas isso se torna impossível pois antes de 2011 não se encontra os manuais do candidato na internet. Entre os anos de 2005 e 2010 tive de interpolar os dados e essas informações aparecem pontilhadas no gráfico abaixo.



___________________Fonte: Ver o texto acima.


Vou tentar resgatar ainda essas informações com mais precisão junto à coordenadoria atual. Porém seria interessante a ANPEC ter o mesmo cuidado que tem com as provas e gabaritos com essas informações administrativas, pois ao longo do tempo um pouco da história da ANPEC pode se perder junto com essas informações, se tornando bem difícil um futuro resgate.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Novos economistas brasileiros pensam diferente e se descolam da antiga geração

Matéria de hoje da Folha de São Paulo me motivou a fazer esse post e a passá-lo na frente de outros que intenciono fazer. A matéria fala de economistas de uma nova geração e tenta rastrear para que lado caminha uma nova geração de economistas em suas pesquisas e preocupações teórico e práticas, bem como suas preocupações em saber como a economia afeta o dia a dia dos cidadãos. 

Entre os economistas mais novos essa divisão sempre foi nítida e ela tem explicações históricas e culturais. Do ponto de vista histórico, a alta inflação que existia no Brasil de longa data e suas manifestações mais agudas no final dos anos 80 e começo dos 90 foi um divisor de águas. Quase todos os economistas formados no período inflacionário do Brasil possuem uma formação de macroeconomistas, muitos deles se preocupam com os efeitos, com os sintômas, tais como inflação, câmbio, nível de juros, salários, preços das commodities, níveis de renda, etc, mas não se preocupam tanto com as causas, em saber quais as causas subjacentes em um plano mais profundo do por quê o nível de preços no Brasil é elevado e geralmente distorcido. Veja uma entevista do Delfim Netto (um dos representantes de uma bem antiga geração) no Correio Braziliense para entender do que estou falando. É claro, existem macroeconomistas não só preocupados com efeitos, mas sim com as causas tais como: produtividade, instituições, ambiente de negócios, educação, saúde, relação público x privado, aspectos demográficos, serviços públicos e várias outros temas e variáveis que afetam diretamente a qualidade de vida do país e dos cidadãos, mas também influenciam nas engrenagens do desenvolvimento futuro.


Ainda hoje o Brasil possui muitos macroeconomistas, o que é natural, dado ainda as preocupações do país. Economistas formados antes do início dos anos 90 no Brasil eram quase que exclusivamente macroeconomistas, os microeconomistas eram espécies raras no mercado e nos departamentos de economia das universidades. No entanto os macroeconomistas mais recentes possuem melhor preocupação com fundamentos microeconômicos e existe maior consenso sobre o que se deve ou não fazer para existir um bom desenvolvimento econômico do país. Com a mudança geral do quadro econômico, muitos economistas passaram para outros interesses não tão vinculados ao nosso quadro de "apagar incêndios", que basicamente fazia com que o grosso dos economistas do mercado fossem contratados para ajudar nos cálculos de correções monetárias. O número de economistas voltado para o interesse em microeconomia, economistas preocupados com a decisão dos agentes e com as formas de produção e organização do mercado, aumentou (ainda são minoria, mas são hoje bem mais frequentes). Uma explicação rápida é de que era praticamente impossível ser microeconomista nos tempos inflacionários, dado que nem os preços relativos se conseguia perceber com muita facilidade.

Sobre a influência do lado cultural, existe também uma importância considerável do estudo no exterior. Os alunos que foram para exterior, saiam de um país de um quadro macroeconômico caótico e iam encontrar lá fora outras preocupações (preocupações estas, digamos, bem mais avançadas do que consertar a bagunça macroeconômica que havia por aqui). Lá os alunos se deparavam com evidências do mundo inteiro, entendiam como variáveis chaves para o progresso econômico (tais como educação, tema que estudo) eram relevantes para o longo prazo, e além disso, tinham contato com pesquisa científica de ponta. Quando voltavam a atuar no Brasil esses alunos traziam isso na sua bagagem, e à medida que íamos ganhando um quadro econômico cada vez mais "normal", os regressos de excelentes cursos de pós graduação no exterior iam mudando a cara das preocupações acadêmicas por aqui no Brasil.

No meu caso, eu me identifico mais com essa nova geração de economistas. Apesar de ter escolhido economia por me interessar pela economia que aparece nos jornais e de uma maneira geral pelo desenvolvimento histórico e econômico do país, dentro da economia eu conheci os fundamentos micro e passei a me dedicar cada vez mais ao assunto. Minhas preocupações com o bem estar e desenvolvimento ainda influenciam no tema principal da educação que escolhi como base, mas dentro disso foi possível entender vários componentes econômicos importantes da produção, dos mercados, dos arranjos alocativos e de como agregar eficiência em nossas atividades humanas. No doutorado eu fiz demografia e pude me ater a alguns comportamentos micro subjacentes. Estudei como as pessoas decidem se casar, ter filhos e o que impacta em sua longevidade, onde elas escolhem morar e por quê, componentes importantes na vida de qualquer pessoa. Nisso, minha tese, como tema geral, se dedicou a estudar como o poder público organiza onde os estudantes estudam e como isso pode impactar na vida dos alunos em um montante expressivo. Para isso foi preciso estudar demografia, matemática, econometria, gestão pública, teoria dos jogos, programação e diversos outros assuntos de interesse que precisaram ser combinados interdisciplinarmente.

Existe ainda um grande caminho para melhoras, nossa macroeconomia ainda reflete resquícios desses antigos anos, o país possui problemas econômicos e sociais próprios, mas de parte existe toda uma geração nova de economistas com boa base que precisa ser escutada. Alguns representantes da antiga geração fazem a ponte com esta nova que ingressou no mercado nos últimos 10 anos, e entre os que ingressam agora. A academia brasileira de economia ainda tem de se desprender de velhas amarras (inclusive no que se refere ao ensino). Para mencionar apenas algumas mais evidentes:

  1. Livrar se do sectarismo, opiniões divergentes são naturais em qualquer ciência, mas isso não deve tornar o conhecimento científico encastelado; 
  2. Quebrar a resistência ao inglês, o inglês é o mais perto que temos de uma língua franca mundial, alunos de graduação que resistem ler inglês estão perdendo tempo em relações aos demais e ficando atrás em relação a todo mundo. O mesmo serve para escrever em inglês. Mesmo que o texto seja voltado para interesses acadêmicos e econômicos brasileiros, deve se estimular sua escrita em inglês, pois assim existe maior possibilidade de inserção e leitura por gente interessada no mundo inteiro. Repositórios de sites nacionais de divulgação e pesquisa, devem se preocupar em ter mais material em inglês divulgado, isso é uma das coisas que estrangeiros mais reclamam no Brasil: muitas páginas não possuem opção para o inglês (algumas delas páginas oficiais do governo), como ter contribuição do restante do mundo e querer impactar no que se faz lá fora se não nos fazemos ouvir? Aliás, eu não deveria esta aqui escrevendo em inglês?! :-); 
  3. Transparência, a academia brasileira ainda é muito pouco transparente. Algumas coisas relacionadas a isso envolvem métodos arcaicos que se repetem por pura tradição. Um exemplo: minha tese possui códigos e dados importantes, talvez, tão importantes quanto o texto. E no entanto, a única coisa da tese que os doutorados no Brasil procuram guardar é o seu texto. Pois bem, ter apenas o texto muitas vezes não serve de nada se não puder ser verificado o que o autor falou, então, os centros acadêmicos de pós-graduação no Brasil deveriam ter um repositório dos bancos de dados utilizados e das rotinas. O mesmo vale para as revistas acadêmicas produzidas por aqui, em muitas delas o enfoque é somente no texto quando em alguns trabalhos, mais de 80% do que e relevante está nos dados e nos procedimentos de pesquisa ou computacionais.
  4. Focar mais nas evidências e menos nas pessoas por trás das evidências. Em economia essa é uma tarefa difícil. No meio econômico costuma se dar muito peso a quem disse uma coisa. Imagino que isso ocorre por que em economia não raro se encontram evidências conflitantes e por isso, ter informações sobre o pesquisador que está relatando uma evidência é uma maneira de tentar verificar seu peso, veracidade e rigorosidade. Mas isso pode ser ilusório, primeiro pode conduzir a um caminho "the winner takes it all", ou seja, se dá muita atenção a quem já possui muita, e pode relevar evidências importantes de um pesquisador menos conhecido. Em segundo lugar, isso pode acomodar os medalhões, pois como eles não precisam ser tão rigorosos no que dizem e já são ouvidos, então, não há muito incentivo no esforço deles estarem mais baseados em evidências.
Há ainda um longo caminho para melhorar o ensino e a divulgação da economia na sociedade brasileira. Uma coisa em comum na nova geração é que ela está mais afeita em aplicar economia em temas diversos e isso tem a vantagem de fazer com que o campo do conhecimento econômico esteja mais próximo do dia a dia das pessoas, e não presente apenas no enfadonho noticiário econômico. Por isso é muito interessante dar um ar mais novo e renovado ao debate econômico no Brasil, os blogs fazem esse papel melhor do que os jornais, que se concentram em vacas sagradas de uma antiga economia brasileira. Sem querer desmerecer o papel dos economistas predecessores, o ideal é que as diferentes gerações de economistas aprendam a conviver umas com as outras e que os economistas de cada geração e de diversas formações saibam compartilhar conhecimentos e percepções, e para que isso aconteça, é importante dar um peso equilibrado para esses diferentes representantes do estudo da economia.

sábado, 1 de setembro de 2012

10º Congresso Internacional de Data Envelopment Analysis

Esta semana participei do 10º Congresso Internacional de DEA em Natal-RN. Esta foto aí foi tirada após um passeio de City Tour para uma agradável tarde de pôr do Sol no Rio Potengi. Da esquerda para direita aparecem Eu, Jose Dulá, Carla Amado, e Lawrence Seiford. O Prof. Rajiv Banker, que não está nessa foto, também se sentou ao nosso lado e conversou conosco por um breve instante.

Agradecimentos especiais vão para a professoras Ana Lúcia Miranda Lopes e Mariana Rodrigues de Almeida, que esmeraram bastante na organização do evento.

Fiquei muito impressionado com a boa disposição entre todos os participantes. Todos muito atenciosos e prestativos. O nível técnico, bem como a preocupação de fazer uma ferramenta aplicada, foi elevado. Aprendi bastante. Infelizmente, não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o professor W.W. Cooper, mas acho que depois deste evento, o espírito dele permanece vivo na comunidade DEA e em seu congresso. 



This week I have attended to the 10th Congress of Data Envelopment Analysis at Natal-RN. From left to right at this picture it's me, José Dulá, Carla Amado, and Lawrence Seiford, at a pleasent time at sunset in the Potengi river. Rajiv Banker, who is not in this picture, also sat with us by a little time.

Special thanks to Ana Lúcia Miranda Lopes e Mariana Rodrigues de Almeida who made this Congress splendid and that carry a lot of effort to organize and make it possible.

I'm very impressed with kindness and attention of all participants. And the technical and applied level was great, I learned a lot. Unfortunately, I did not had the opportunity to meet the prof. W.W. Cooper personally, but I Think that the his spirit remains alive at DEA community and at this congress.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Artigo do Prof. Fabrício Augusto sobre a dívida de MG

Caros, o informativo de divulgação "Agênda Econômica" do Corecon-MG, trouxe na sua penúltima edição (Setembro/11) um artigo do Fabrício Augusto de Oliveira, economista especialista em Finanças Públicas. O artigo é bastante explicativo e interessante, ele dá as perspectivas de pagamento (ou insolvência) do estado de Minas Gerais. O assunto ainda é quente pois não só Minas Gerais, mas outros estados estão pleiteando nova renegociação da dívida. Em um quadro de futuro desaquecimento, volta da inflação e eleições municipais do próximo ano, o tema coloca as negociações de governos dos Estados e o Federal em um dilema de cruz e espada. Segue abaixo o artigo completo.  

"A dívida do estado de Minas Gerais: “Choque de Gestão” para não torná-la impagável

Fabrício Augusto de Oliveira(*)

A dívida contratual do governo do estado de Minas Gerais saltou de R$ 18,5 bilhões, em dezembro de 1998, para R$ 64,5 bilhões, em dezembro de 2010. Em termos reais, Isto é, descontada a inflação, a dívida cresceu, neste período, 15%, o que significa um crescimento anual de 1,15%. Um crescimento apreciável, considerando o fato de que, desde a implementação do programa “Choque de Gestão”, os déficits públicos, em Minas Gerais, de acordo com o governo, deixaram de existir.

A dívida pública só aumenta por quatro motivos: a) para cobrir desequilíbrios orçamentários provocados por gastos primários correntes superiores às receitas; b) para a realização de investimentos para os quais não se conta com recursos orçamentários suficientes; c) para o refinanciamento da dívida e de seus encargos; e d) para a cobertura de passivos imprevistos que surgem e para os quais também não se conta com dotações orçamentárias.
A partir do contrato da dívida com a União, o estado de Minas ficou proibido de contratar novas operações de crédito, o que só voltou a ocorrer em 2006, quando se enquadrou no limite de endividamento estabelecido pela Resolução 40, de 2001, do Senado Federal. De lá para cá, ou seja, até 2010, realizou novas operações de crédito no montante de R$ 3,7 bilhões. Se, apenas para simplificarmos, deduzirmos este montante do estoque da dívida, ainda assim restaria um saldo de R$ 60,7 bilhões.
Por outro lado, como o estado vem registrando superávits primários desde 1998 e o surgimento de passivos contingentes (reconhecimento de “esqueletos”) não tem sido expressivo, este crescimento se explica, predominantemente, pelo refinanciamento da dívida e de seus encargos (ou seja, pelo seu serviço), embora tais informações não possam ser obtidas apenas pela leitura de orçamento, já que este, devido a uma contabilidade peculiar que começou a ser feita após a renegociação da dívida com a União, não contabiliza esses valores.
Na atualidade, são dois os principais credores da dívida contratual do estado: a União, que detém 85% de seu total, e a CEMIG, com 8%. A dívida com a União, que, em dezembro de 2010, montava a R$ 54,8 bilhões, é corrigida pelo IGP-DI + juros reais de 7,5%. A dívida com a CEMIG, que atingiu R$ 5 bilhões no mesmo ano, tem custos ainda mais altos: IGP-DI + 8,18%. Para a União, o estado é obrigado a destinar 13% de sua Receita Líquida Real (RLR) para o pagamento de seus encargos, sendo o restante que não é pago (o resíduo) incorporado diretamente ao seu estoque. Para a CEMIG, o acordo prevê o pagamento de um percentual dos dividendos recebidos da empresa pelo estado para sua amortização.

Em nenhum dos casos, os pagamentos feitos conseguem, nem de longe, cobrir os encargos anuais. No caso da União, o estado efetuou o pagamento de R$ 3,1 bilhões em 2010, mas deixou de pagar cerca de R$ 6
bilhões, fazendo a dívida saltar de R$ 48,7 para R$ 54,8 bilhões. No da CEMIG, o estoque da dívida aumentou mais de R$ 700 milhões no ano, fazendo o seu estoque avançar para R$ 5 bilhões. 

Para interromper essa trajetória de crescimento explosivo da dívida do estado, tornando-a impagável, o governo deveria contemplá-la, também, com um verdadeiro “choque de gestão”: a realização de uma renegociação séria com o governo federal para reduzir seus custos (indexador e juros) e também com a CEMIG (uma dívida ainda mais cara), não descartando, também, a alternativa de trocá-la por outra dívida menos onerosa. A população agradeceria."

(*) Doutor em economia pela Unicamp, Professor do programa de mestrado em Administração Pública da Fundação João Pinheiro, Conselheiro do CORECON-MG, é autor, entre outros, do livro “Economia e Política das Finanças Públicas no Brasil”.

sábado, 8 de outubro de 2011

E não era previsível?!

Inflação acumulada de 12 meses encontra-se em 7,3%. Hoje, o ex-colega de Fundação João Pinheiro Reginaldo Nogueira, agora no Ibmec-BH, apareceu em matéria do jornal Folha de S. Paulo (assinantes, não assinantes: aqui) comentando que se trata de uma inflação generalizada. Em contraparte, a Folha entrevista o presidente do Banco Central: Alexandre Tombini, acho que sai amanhã. A meta já foi estourada, se a taxa de inflação for zero em outubro, novembro e dezembro, a inflação do IPCA esse ano já fica em 5,8%. Seria preciso que ela fosse cerca de -0,6% nos três próximos meses para alcançar o centro (missão impossível). Se otimisticamente ela for igual à média dos últimos 9 meses (0,54%) chegaremos ao fim do ano com 6,68%, passando só um pouco o teto de 6,5%. O problema é que vêm aí os meses mais aquecidos, se repetirmos as inflações dos três últimos meses de 2010, o limite superior da meta é bem estourado e a inflação será de 7,3%, coincidência?! É exatamente a nossa acumulada.

Fonte: IBGE IPCA-mensal, do site www.ipeadata.gov.br; Para Set, Folha de S.P. e demais cálculos c/ base 1 para 01 de Jan.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Um pequeno modelo de Eficiência nas Universidades

Hoje foi divulgado a classificação das universidades Latino Americanas na QS, uma organização voltada a comparar instituições de ensino em todo mundo. A metodologia deles envolve diversos aspectos, uma classificação geral comparativa que eles chamam de reputação acadêmica, citação dos artigos, "paper citation", pesquisa de percepção dos estudantes e até número de ocorrências na web (web impact). 

Eu mesmo respondi esse ano à pesquisa dirigida aos estudantes. Respondi o questionário pela UFMG, onde agora faço doutorado. Na classificação da América Latina a UFMG ficou em 10º lugar, e na classificação do Brasil em terceiro, atrás apenas de USP e Unicamp, e logo acima da Universidade Nacional de Brasília (UnB, onde me graduei em economia).

Ranking de Algumas Universidades Brasileiras (de acordo com o QS):

1º  USP             11º UFPE
2º  Unicamp         12º UFSC
3º  UFMG            13º PUC-SP
4º  UnB             14º UFPR
5º  UFRGS           15º UFBA
6º  PUC-Rio         16º UFSC
7º  UNESP           17º UERJ
8º  UFRJ            18º UFV
9º  PUC-RS          19º UE Londrina
10º UFSP            20º UE Pelotas

Ao vermos esses rankings de instituições sempre surge a necessidade de relativizá-los e fica aquela pergunta: "Quem faz melhor com os recursos que tem?" Isso diz muito a respeito sobre a eficiência das universidades, pois é sabido que USP e Unicamp são as que possuem mais recursos. Em uma lista de economia, um colega rapidamente levantou os gastos das seis universidades abaixo (tenho ainda de conferir a fonte, para a Federal de Viçosa peguei informações da lei orçamentária de 2012, pois pareceu um valor mais próximo do realizado nas outras). No site do INEP, consegui as matrículas da graduação de 2009. Ao aliar com a nota do ranking temos os seguintes dados:

Tabela de Dados, 2 outputs e 1 input:
Fonte: ver arquivo excel.

Com esses dados é possível construir um modelo de eficiência de análise envoltória bem simples (DEA - Data Envelopment Analysis). Aplicando uma escala de rendimentos constantes, com poucas observações e poucos produtos e insumos, é relativamente prático construir o gráfico em uma planilha de excel. Como os valores são diferentes o gráfico tem o logaritmo dos valores multiplicados por 1.0E+8. O gráfico da fronteira de possibilidades de produção fica:

E dessa forma temos o seguinte ranking de eficiência (orientação produto):

UFRGS   = 1.00
UFV     = 1.00
UFMG    = 0.99
UFRJ    = 0.98
UnB     = 0.97
USP     = 0.90
Unicamp = 0.87

O ranking de eficiência é interessante por mostrar quem faz mais com menos. Ele ajuda nas comparações custo-benefício, ou melhor dizendo: insumo-produto. No caso, quanto melhor a qualidade dos insumos e produtos que se tem em mãos, e quanto melhor o conhecimento sobre a forma funcional da produção, melhor pode ser a análise das informações extraídas dos modelos. Um artigo referência na área sobre universidades federais é Façanha, Resende e Marinho (1997), esse link não apresenta o pdf, mas é possível pegar as referências. Nesse artigo eles encontraram que a UFRJ é eficiente por exemplo. Corbucci (2000) traz mais de uma dezena de indicadores de produtividades das universidades. Vários outros trabalhos revisitam esse tema de uma ou outra maneira. Há até um estudo sobre eficiência em Portugal de Afonso, e Afonso e Aubyn (2005) que realizam uma cross-country. 

Não faltam estudos nessa área, e muitos rankings de eficiência foram e ainda serão traçados para se compreender o ensino superior. O modelo simples aí acima não permite traçar maiores conclusões. Sabemos que USP e Unicamp são muito boas, mas quem sabe elas não poderiam ter resultados maiores em alunos-ano? Ou então um orçamento mais enxuto. Há muitas variáveis que não estamos captando em termos de pós-graduação e talvez USP e Unicamp não sejam tão comparáveis assim.

É isso, mais detalhes, escrevam nos comentários ou me peçam por mais referências.  
  


terça-feira, 27 de setembro de 2011

Greves e Inflações

Uma onda de greves toma conta do país: greve dos correios, dos bancários, dos professores, operários da construção civil nos estádios, do judiciário e por aí vai... O que esses diferentes eventos têm em comum? 

- Um inimigo silencioso e velho conhecido: "a inflação". A inflação lentamente corrói o valor do salário real, que pode ser escrito como: w = W/P. Em que W é o salário nominal dos trabalhadores e P, o nível geral de preços de uma dada cesta de bens. A variável com que todos os trabalhadores se importam não é o valor do salário nominal em si, mas sim o valor das coisas que o salário pode comprar (W/P). E o salário das famílias está podendo comprar cada vez menos, aos poucos os trabalhadores se dão conta de que o orçamento não chega ao fim do mês, e as contas estão difíceis de serem mantidas. E então, vão às portas da gerência, dos governos e às ruas reivindicar correções salariais. Nada mais justo, os trabalhadores são os que mais sofrem com a inflação. Sob quem recai a culpa da inflação?

- A culpa se sobressai em meio a uma política monetária de macroeconomia irresponsável. Não digo da queda recente das taxas de juros e nem da subida do câmbio que são movimentos pelos quais até os mais ortodoxos de nossos economistas torciam. Apesar dos esforços malogrados do Bresser-Pereira para pintar os novo-desenvolvimentistas como seres iluminados, todo economista no Brasil sabe que nosso câmbio estava (está) sobrevalorizado e que nossas taxas de juros são repressoras. O problema é achar que se resolve as coisas com medidas que não levem em conta as condições ideais. Esse recrudescimento da inflação era esperado e tem sido deixado de lado pela equipe macroeconomica, apesar das palavras duras mas vazias da presidente afirmando sempre que possível o contrário, que não daria trégua para inflação.

Pois bem, a inflação aí está. Fica como tarefa a nós economistas tentarmos estudar essa relação causal entre inflação e o surgimento das greves, e também cobrar a responsabilidade da política monetária. Todos nós queremos redução dos juros, vários diagnósticos apontam isso, mas infelizmente monetaristas tem de entender sempre que o lado monetário vem à reboque e não antes (ou deveria ser assim, afirmação do campo normativo). Mais frouxidão monetária só significa mais inflação, as correções saláriais virão, com o nível de aquecimento atual da demanda e a capacidade produtiva mais próxima do limite, essas correções serão mais lenha na fogueira inflacionária. A única solucão pra que de fato isso não aconteça é arriscarmos um arrefecimento forte da nossa economia, uma aposta muito arriscada que nossa autoridade monetária têm feito.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Artigo Sobre Custos Pós e Pré operatório da cirurgia Bariátrica

Amigos, ano passado, comecei a trabalhar em um banco de dados interessante com informações de pacientes operados em cirurgia bariátrica pela UNIMED-BH, uma rede bem grande de pacientes. Esse banco deriva da tese de dissertação da amiga Silvana B. Kelles. E sua tese derivou em dois principais artigos, um aprovado na revista médica especializada, a Obesity Surgery (em 2009) e outra versão no São Paulo Medical Journal, que ainda será publicado.

Essa versão do artigo do SPMJ é uma que eu comecei a trabalhar ano passado. Silvana e os demais autores, Sandhi Barreto e Leonardo Guerra, compararam dados de custo antes e depois da cirurgia bariátrica, estudando os efeitos de co-morbidades e variáveis de características pessoais.

No segundo semestre de 2011, eu e Silvana fizemos um trabalho no curso de Análise de Dados Longitudinais do prof. Enrico Colosimo do departamento de estatística da UFMG. O trabalho final envolveu trabalhar longitudinalmente o banco de dados de pacientes submetidos à cirurgia Bariátrica. Em Junho desse ano o apresentamos em poster no Congresso Internacional em Tecnologia da Saúde, em inglês Health Technology Assessment international (HTAi). Agora estamos trabalhando em uma versão para a revista Brasileira de Economia da Saúde.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Economia Além do Cuspe e Giz

Caros alunos e eventuais leitores,


ou seria melhor: "Caros leitores e eventuais alunos", nesse domingo do primeiro de Maio o Jornal Estado de Minas, publicou matéria sobre algumas técnicas de ensino que tenho utilizado nas aulas de macroeconomia do cusrso de Administração Pública da Fundação João Pinheiro. Eu já tenho postado algumas informações sobre essas técnicas aqui no blog. Considero que agora o curso está montado de uma maneira bem clara e elucidativa para o aluno e tem a vantagem de basear-se em uma série de conceitos econômicos aplicados à sala de aula.


Creio que em breve poderei tecer aqui comentários mais demorados. Fiquem com a matéria, reproduzida no clipping da Fundação (cique na imagem para ampliar):



No mesmo dia apareceu matéria muito interessante do colega de Fundação: Mario Rodarte (agora professor na UFMG) falando de uma possível hipótese da saída de mulheres da população econômicamente ativa (PEA) para se dedicarem exclusivamente à educação dos filhos. Um avanço propiciado pela maior renda ou um retrocesso visto pelo ponto de vista das conquistas de direitos já alcançadas pelas mulheres no mercado de trabalho?


(clique para ampliar)




quarta-feira, 9 de março de 2011

Economia e Meio Ambiente

A questão ambiental deve estar também dentro do compromisso ético dos economistas. O vídeo abaixo "A História das Coisas" aproveita uma versão simplificada de um sistema exploração, produção e descarte.



O vídeo simplifica bem algumas questões, mas é bastante relevante e deve ser considerado por todos nós preocupados com o uso consciente dos recursos. De primeira mão, a apresentadora e pesquisadora Annie Leonard usa alguns conceitos importantes, um deles o de externalidades. No momento em que menciona um rádio que custa US$ 4,99 se pergunta: "Como U$ 4,99 podem refletir o custo da produção e transporte desse radio até ele chegar em minhas mãos?"

O preço do rádio é assustadoramente barato. Existe uma parte do argumento da autora que está impreciso e a outra parte é correta. A parte imprecisa é que a apresentadora chega a conclusão que o preço de 4,99 não paga nem o custo do rádio estar exposto na prateleira. Bom, tecnicamente, um único produto não precisa fazer isso, porque supermercados trabalham com elasticidades cruzadas. Saindo do economês, o radinho de pilha que você compra barato em promoção é um chamariz para comprar outros produtos que compensam o fato daquele radinho estar lá, a pilha pode ser um deles.

A parte correta: a produção do radinho de pilha de fato deixa de pagar muitos custos de produção não contabilizados, as externalidades dos custos. Externalidades são custos não apropriados (e não pagos) por ninguém, mas que cobram o preço ambiental em termos de qualidade de vida das pessoas envolvidas na produção, assim como aquelas não diretamente envolvidas. Suponhamos que o rádio foi transportado por um caminhão que joga muita fumaça fora. Essa poluição não foi contabilizada por ninguém. Na verdade, há uma série de outras externalidades até mais importantes que essa. A apresentadora parece incluir "o trabalho das crianças do Congo" como uma dessas externalidades, mas não creio que essa possa ser considerada stricto senso como uma. Há, no entanto, a questão moral para melhorar esse quadro em que crianças e adolescentes trabalham. A competição por oferta de trabalho em melhores condições deve ser orientada, ou seja, a exploração do trabalho se combate com direitos trabalhistas e mais desenvolvimento econômico e material. É possível requisitar também uma abordagem ética do lado empresarial.

Outro ponto econômico importante do vídeo: a seta dourada do consumo. Alguns economistas realmente parecem viver em função daquela seta, mas nem todos pensam assim. Eu diria que o Keynesianismo de uns 20 anos atrás, que para manter a economia girando, estimulava o consumo a qualquer preço, cobra nos dias de hoje o seu preço, uma sociedade atulhada de bens de consumo descartáveis. O consumo deve ser sim eficiente, e o consumo pelo consumo, para estimular os ânimos das pessoas, tal como pregava a economia keynesiana mais ortodoxa, só adia os problemas devido ao uso ineficiente de recursos.

O vídeo usa um exemplo de uma decisão equivocada do governo Bush ao incentivar as compras pós 11 de Setembro. O governo Obama, ao salvar a GM, continua tomando as mesmas medidas Keynesianas e equivocadas. Por que salvar a produção (e o consumo) de carros não eficientes e não friendly ao meio ambiente? Aliás, é isso o que fazem os governos pelo mundo afora, é isso o que se fez no Brasil com a redução do IPI. Nesse ponto estou de pleno acordo com o vídeo de que os governos passaram a engraxar os sapatos das grandes coorporações.

A questão dos resíduos: a estatística de que apenas 1% do que é produzido não é consumido em menos de seis meses me pareceu surreal. Como economista sei das gigantescas dificuldades em se fazer essa conta. Mas não sei como essa conta em particular foi feita. Não me impressiona que a maior parte do consumo se exaure em menos de seis meses. Em primeiro lugar, uma economia de serviços, por definição, é uma economia onde não se consegue contabilizar isso. O serviço é um consumo imediato. Outros produtos, agrícolas e demais perecíveis, que compõem uma parcela expressiva do produto de muitos países também se exaure rapidamente. Enfim, aquele porcentual referido só seria muito maior caso tivessemos uma economia com parcela expressiva de bens duráveis. No entanto, sei que ainda assim a conta seria muito difícil, pois uma boa parcela de bens duráveis é na verdade contabilizada como consumo. Ou seja, se "você" consumidor compra um computador novinho, não importa se você cuida bem dele e consegue ele fazer durar 6 anos, ou se você é desleixado usuário e o destrói em menos de 6 meses, para as contas nacionais aquele computador "some" (é consumido) a partir do momento em que sai da loja.

Ao cabo, apesar de não concordar com tudo, achei o vídeo extremamente relevante. Não tenho o que dizer sobre a questão das toxinas, isso ultrapassa o meu conhecimento, mas sei também que ambientalistas costumam a ser alarmistas nesses pontos. Para concluir, pontuo que a questão ética-ambiental é extremamente importante e tenho a percepção de que os economistas podem ajudar muito na economicidade dos processos e nas contabilidades corretas das externalidades envolvidas na produção e no desgaste do meio ambiente.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Entrevista ao circuito UFMG sobre efeitos da Educação e Saúde no PIB

Na última terça-feira dei uma pequena entrevista à TV UFMG daqui de Belo Horizonte, canal 12 (Net e Sky) ou no 14 (Oi TV) . O tema da entrevista foi um estudo que saiu no comunicado Nº 75 do IPEA e mediu por meio das técnicas de multiplicador econômico derivadas da matriz de contabilidade social, qual o retorno dos investimentos na área social. De fato, de acordo com o estudo, a área de educação obteve o primeiro lugar em termos de multiplicador de renda, seguida pela área de saúde.

O editorial do circuito UFMG me chamou para comentar sobre a relação entre crescimento do produto e os gastos sociais. Abaixo estão as perguntas enviadas por e-mail, com um roteiro das minhas respostas. A parte escrita está mais longa e com mais detalhes, a parte da TV é um resumo rápido disto.

PERGUNTAS:
  1. Qual a relação entre o crescimento do PIB e os gastos feitos com Educação e Saúde?
  2. O Cálculo feito para mostrar o retorno do investimento em educação e saúde é feito levando em consideração principalmente quais fatores.
  3. Na quinta-feira, dia 03, foi anunciado que a prioridade da nova gestão do governo de Minas são os investimentos em infraestrutura. Quais as vantagens para a distribuição de renda e crescimento do PIB com gastos nesta área? O governo de Minas está retirando dinheiro da saúde e educação para investir em infraestutura? Quais serão os prejuízos desta ação a Longo Prazo?
  4. Em relação aos investimentos em tecnologia, como eles afetam o crescimento do PIB?
  5. Por que onvestimentos em gastos sociais rendem mais do que investimentos na construção civil, exportação entre outros gastos?
  6. O FMI prevê um aumento de 4,5% no PIB brasileiro para 2011, cerca de 0,4% a mais do que no ano passado. Você acha que esse crescimento será causado principalmente por gastos em educação?
RESPOSTAS:

1. No Brasil o setor educacional público e privado movimenta, em geral, uma quantia de 5% do PIB, e o setor de saúde (público e privada) quase 4% do PIB, os dois juntos respondem por cerca de 10%. Poucos setores de serviços tem uma influência tão grande. Junta-se a isso o fato de que esses dois setores contribuem não só com o crescimento atual do PIB corrente, como potencializam os ganhos futuros. Uma sociedade mais educada é capaz de produzir com maior eficiência e qualidade. E uma sociedade saudável vive por mais tempo e com maior qualidade de vida. Olhar esses dois setores de forma conjunta é sempre bom por valorizar a capacitação das pessoas, tanto pelo lado da educação quanto pelo lado da saúde.

2. Existem vários métodos para se contabilizar os efeitos dos investimentos em educação e saúde. Um deles é o método do multiplicador (que foi o que o IPEA utilizou). Essa método capta toda a cadeia produtiva da saúde e educação e vê o quanto isso gera em renda para as famílias. Outro método leva em conta os benefícios futuros de uma maior escolaridade da população e de um melhor nível de saúde, trazendo-os a valor presente e comparando ao investimento realizado. As contas do IPEA poderiam ser ainda mais favoráveis para educação e saúde caso se acrescentasse também essa metodologia, dado que já se sabe o que esses dois setores agregam à renda quando potencializam a renda futura.

3. Os gastos governamentais podem ser divididos em duas naturezas: dispêndio (também chamado de custeio) e o Investimento. A infraestrutura é um investimento e o investimento é bom por aumentar o PIB e capacitar a população para maiores ganhos no futuro. Mas nesse quesito é preciso olhar essa divisão sempre com muita cautela. A construção de uma escola ou hospital é encarada como investimento, no entanto o pagamento de salários de professores e médicos é visto como custeio. Porém, sabemos que não existem escolas sem professores e alunos nem hospitais sem médicos, enfermeiros e pacientes. Alguns gastos de custeio como esses em educação e saúde deviam ser vistos como verdadeiramente um investimento, pois capacitam a população.

4. Os investimentos em tecnologia, que pode ser vista como a melhoria de processos, possuem uma inegável contribuição ao crescimento econômico e qualidade de vida. No que tange os hospitais, por exemplo, a tecnologia traz diversos avanços, deixando os exames cada vez mais precisos, confiáveis e sofisticados. Cabe observar somente que tais investimentos têm de ser bem-feitos e lembrar que políticas que prezam a ciência e tecnologia têm de ser cultivadas no longo prazo, pois os retornos não são tão imediatos.

5. Os investimentos sociais e de qualificação das pessoas são os que mais importam para a economia, pois eles são a base para fazer com que todas essas outras áreas mencionadas na pergunta se tornem ainda mais produtivas.

6. As previsões costumam a falhar. Esses 4,5% do FMI são apenas um referencial, não quer dizer que a previsão vá ocorrer. Observando o crescimento do ano passado e a recuperação do contexto mundial, eu diria que é possível que o Brasil ultrapasse a meta desse ano. Porém, o país deve estar atento para as áreas onde investe mal os seus recursos. Alguns exemplos conhecidos da área da saúde e educação (equipamentos comprados que esperam hospitais, falta de leitos, escolas sem gerenciamento adequado) nos mostram que os resultados poderiam ser ainda melhores.

A entrevista que foi ao ar na terça-feira está no video abaixo.


A integra do programa circuito UFMG está no link:
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http://www.ufmg.br/online/tv/arquivos/018166.shtml


Curiosidade, um especial do circuito UFMG conta com a entrevista da profa. Ma. Conceição Tavares:

http://www.ufmg.br/online/tv/arquivos/016636.shtml

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

The Subway Problem

O metrô de Brasília é o novo xodó do transporte público da população Brasiliense. Estações, limpas, vagões novinhos em folha, muito asseio, conforto e rapidez. Ao preço de R$3,00 cada viagem (sendo que no fim de semana o preço abaixa para R$ 2,00, similar ao preço de várias linhas de ônibus que cobrem o plano piloto e satélites mais próximas). Os cidadãos da capital do país estão bastante zelosos com uso desta mais nova jóia do transporte público e desejosos da manutenção do nível dos serviços. O metrô da capital federal possui 42 Km de extensão.

Em particular, nesse último mês, esse economista observador que vos fala, que já é fã de trens urbanos tem utilizado bastante o trem. Fui até Aguas Claras, e tenho usado principalmente para ir ao "centro" da capital. Notei que o afluxo de pessoas está aumentando, usei o metrô também ano passado e pude comparar. Ainda assim, poucos brasilienses usam o serviço, o que significa que o metrô raramente está lotado (não como nas outras capitais). Também não pude deixar de observar estações vazias, em particular, me chamaram a atenção as estações inacabadas da 104, 106 e 110 Sul (vejam aqui um pequeno video que fiz no passeio de metro brasiliense). As estações já estão lá prontinhas para serem usadas, o mais difícil já foi feito, cavaram o buraco no chão, fizeram os pilares e toda a estrutura, falta o acabamento.


Essas estações são uma coisa bem típica do Brasil que gosta de jogar dinheiro fora... Fiquei pensando: "Será que algum dia vão ativar essas estações inacabadas?", "Compensa ativá-las?", "Se algum dia vierem a ativá-las o trabalho estará justificado, pois maior parte do serviço está pronta". Mas temo mesmo é que as estações da 104, 106 e 110 nunca serão ativadas. Taí mais um exemplo de desperdício do dinheiro público tão comum em nossas terras".

Acrecenta-se que seria totalmente lógico não ativá-las. O morador de Brasília sabe muito bem que as distâncias da 102 para a 104 não é tão grande. O mesmo ocorre da 108 para a 106 ou para a 110. Além disso, tenho observado que as estações das quadras do plano piloto são as menos densas no afluxo de passageiros (muitos críticos anteriormente defendiam que a w3 era o eixo mais apropriado no plano piloto), isso não quer dizer que não deva ter estações nas quadras, mas que ali os passageiros tem mais renda e mais opções de substituição do que nas periferias. O que ocorre? E por que acho que tais estações nunca serão ativadas?

Ativá-las atranvancaria o tempo de viagem do metrô que pararia em três quadras a mais para subirem e descerem apenas alguns gatos-pingados.

Chegamos então à grande questão lógica:
O Sr. Economista Questionador pergunta:

- "Para quê foram construídas as estações da 104, 106 e 110 que não estão sendo usadas?"

Sr. Projetista Estatal de plantão:
- "Para adiantar o trabalho caso o afluxo de pessoas aumente e precisemos ativá-las"

Sr. Economista:

- "Mas as quadras não são áreas pouco densas no transporte de passageiros do metrô?"

Sr. Projetista:

- "Sim, mas..."

Sr. Economista:
_ "E dado o atual afluxo de pessoas nas estações já instaladas da 102, 108, 112, 114 e Asa Sul, você acredita que o afluxo nas estações faltantes possa ser tão maior assim?"

Sr. Projetista:

- "As pessoas substituirão o carro pelo metrô e o movimento nas quadras pode aumentar."
Sr. Economista:

- "Concordo que isso possa ocorrer, mas será que aumentará o bastante?! Afinal a viagem durará mais tempo não é verdade?"

Sr. Projetista:

- "Sim o tempo de viagem, irá aumentar..."
Sr. Economista:

- "As pessoas não gostam de um transporte público que anda-e-pára, anda-e-pára, para isso já existem os ônibus. Se o metrô ficar muito lento algumas pessoas deixarão de usá-lo. Vale a pena aumentar o tempo de viagem para que umas poucas pessoas da região menos densa do plano piloto andem mais de metrô e menos de uma estação para outra?"

Sr. Projetista:

- "Sob essa perspectiva, não."

O Economista arremata dizendo:

- "Todo sistema de metrô enfrenta o mesmo problema básico: 'alcançar o maior número de passageiros oferecendo o maior conforto e o menor tempo de viagem possível'".

Simplificando, podemos colocar duas simples funções matemáticas para descrever esse problema:

1) O número de passageiros aumenta se aumentarmos o número de paradas, mas se colocamos muitas paradas próximas umas das outras o número de passageiros não incrementará tanto assim. Digamos que depois das duas paradas principais, cada parada a mais não consegue mais do que mil passageiros a cada viagem. Vamos descrever com a seguinte equação:


pax = 1000.p^(½)


Pax (número de Passageiros por viagem) e p é o número de paradas.

2) Se aumentamos o número de paradas aumentamos o tempo médio de viagem. E a cada parada acrescentam-se 5 minutos de tempo de viagem. E a cada parada e tempo de viagem que se acrescenta, mais pessoas desistem de viajar no metrô. Digamos que essa equação seja:


pax = 5.p²


Esse é um simples problema de maximização de 1) sujeito à 2) onde a solução para o exemplo é:


p = 13,5 (Ou aproximando para cima: 14 paradas).


Que podemos também representar no gráfico abaixo:
O mais importante desse exemplo não é um número particular de paradas, mas sim mostrar que existe uma solução ótima para o total de paradas a construir. É possível saber onde e em quais locais. É claro, que para se adequar melhor à realidade seria necessário que as equações fossem muito mais complexas e completas. A cidade tem regiões de densidade bastante diferentes, uma parada a mais na 110 sul, não é a mesma coisa em número de passageiros do que uma parada em Taguatinga. As regiões com densidade de passageiros diferentes complicariam o modelo. Assim como minha equação que descreve os passageiros desistindo com o acréscimo de tempo precisa de muito mais elementos, não considera o preço e o comparativo do tempo de viagem dos transportes alternativos.

No entanto, o que mais me admira nessa história toda é de como no Brasil temos vários exemplos ocultos de desperdício de dinheiro. Dinheiro público principalmente, um planejamento bem-feito resolveria várias dessas questões, mas continuamos com a preferência de esbanjadores a construir paradas-fantasma para ninguém usar e literalmente enterrar o dinheiro público.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Economia e os Pênaltis


Essa semana chamou atenção um estudo econômico que vai ficar marcado para o conhecimento técnico do futebol e para as evidências de experimentos naturais em economia. José Apesteguia (Universidade de Pompeu-Fabra de Barcelona) e Ignácio Palacios-Huerta (London School of Economics) estudaram um experimento natural curioso: o cara e coroa antes dos pênalties no futebol. O estudo está para vir na próxima edição de uma das revistas mais tops de economia: a American Economic Review.

Como a maioria dos estudos vêm desde muito antes da publicação, encontrei um working paper desses mesmos dois autores (aqui na IDEA REPEC). Os autores utilizaram um banco de dados da Union of European Football Association (a UEFA) e possuem 262 informações sobre as decisões por pênaltis e 2.273 cobranças, realizadas no período de 1970 a 2008. Os autores lembram que a partir de 2000, o capitão ganhador do sorteio pode escolher entre seu time ser o primeiro a chutar ou chutar depois.

Pois então, há alguns detalhes técnicos que podemos descutir com os economistas e estatísticos aqui nos comentários. Os autores controlam a qualidade do time (pelo ranking da FIFA, para países, e o ranking UEFA para clubes) e se jogo é em casa de um dos times ou em campo neutro. Não encontraram nenhum efeito para as covariáveis acima, mas o resultado interessante é que o time que ganha no cara ou coroa tem uma chance maior de vencer a decisão. Para as decisões de penaltis com apenas 5 cobranças, essa chance chega a ser quase 100% maior do que para o time que bate em segundo. Essa chance se mantém para as decisões que se finalizam no sétimo e oitavos chutes. No sexto chute, caso os cinco primeiros fiquem empatados, eles encontram uma vantagem para o segundo a bater. A medida que a decisão se prolonga o banco de dados fica naturalmente com menos dados já que é difícil encontrar ocasioções de decisões empatadas até a 12ª rodada, por exemplo.

O resultado geral é que, de 1970 a 2008, o time que bate primeiro tem uma chance de ganhar 60% das decisões contra 40% do time que bate em segundo lugar. Muito interessante alguns dsdobramentos que os autores fazem. Se o time que bate primeiro mantem a dianteira na pontuação, sua chance de ganhar se amplia, do contrário, se o time que bate primeiro fica atrás, a chance de ganhar cai considerávelmente. Os autores concluem que há um efeito psicológico em se manter na dianteira e por isso o cara ou coroa chega a ser fundamental para o futuro dos times em uma decisão por pênaltis.

Esse efeito é sugerido pelos próprios jogadores e técnicos. Após a mudança da regra em 2000, os ganhadores do cara ou coroa, continuaram optando por bater primeiro e o motivo alegado foi a vantagem psicológica. Apenas um caso fugiu a regra nessa escolha.

Por fim, os autores recomendam, para anular a vantagem do time que cobra primeiro, a cobrança do pênalti duas vezes para cada jogador, seria como a lei da vantagem do tie-break no tênis. Se o batedor converte passa a chance ao próximo time, caso não converta de primeira, há a chance de converter na segunda. Eu acho que desse modo passariamos a ter outro problema, gols demais nas decisões dos pênaltis. E extenuantes decisões longas. Mas talvez seja mais justo mesmo.

Por fim, há um amigo que menciona sempre estudos que mostram qual é o canto mais provável de conversão ao se bater no chute à gol. Mas deixo esses estudos para outra postagem...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cardápio de Leitura (Resenhas de Livros de Economia)

Caros leitores, selecionei alguns livros de economia para fazer curtas resenhas de leitura. Espero que seja útil para quem está procurando livros na área, seja para dar de presente no Natal, seja para dicas de leitura em eventuais férias ou tempo livre. A maioria desses livros eu li em aeroportos entre uma viagem e outra, alguns eu apreciei tanto que os li em prazo bem curto, menor do que uma semana, já outros, fizeram-se com uma leitura mais arrastada. Para quem é do ramo, tratam-se portanto de livros fáceis de serem digeridos por uma leitura corrida (ao contrário da leitura detida que algumas leituras epecializadas e de estudo requerem). São todos livros de economia ou estatística voltados para um público amplo.

A ordem dos livros está posta de forma um tanto aleatória mas com o viés de ter leituras mais recentes e que gostei mais em primeiro, no entanto há bons livros lá para o final da lista. Para cada livro há o título, nome do autor (ou autores), resenha, Editora, faixa de preços, número de páginas e Avaliação. A escala de avaliação é a seguinte:

Essencial > Muito Bom > Bom > Dispensável > Deplorável

É claro que essa classificação reflete meus gostos pessoais e dificilmente veremos Deplorável nessa lista, pois é uma lista de minha própria escolha já que não sou crítico profissional. Mas eu costumo a finalizar livros do qual não gosto então há uma chance deles aparecerem por aqui.

1. A Economia em Pessoa. Escrito pelo próprio Fernando Pessoa (não um de seus pseudônimos) e organizado por Gustavo H. B. Franco (ex presidente do Banco Central). Esse livro reúne 11 textos de Fernando Pessoa elaborados no tempo em que o poeta organizava uma revista de contabilidade e comércio. Na introdução há um belo texto de Franco contando a estrutura do livro e de como ele foi gestado e a idéia de associar a cada texto um conceito de economia moderna. Antes de cada texto, há uma pequena explicação do contexto, as explicações são curtas e não aborrecem, mas são um tanto desnecessárias, já que os textos que Pessoa ali nos deixou são atualíssimos. Pessoa foi um estudioso do comércio e da contabilidade. Trabalhava em firmas de representação comercial, e esse era seu ganha-pão, dado que veio a ser mais reconhecido pelos poemas no post mortem. E podemos dizer que ele levava braços ao comércio não sem uma dedicada paixão, já que abriu várias empreitadas comerciais e era dedicado a analisar aspectos das leis que facilitariam ou prejudicariam a atividade. A leitura é um deleite impar, os textos de Pessoa são de uma organização e de uma clareza de pensamento maravilhosa. Pessoa possui uma postura marcadamente liberal, o que é de fato interessante, aliava isso a uma posição moral que entendia necessária, pois julgava os estudos sociais ainda não serem ciência, e não sendo ciência, era possível desconstruir os intervencionistas que já existiam. Sua defesa do liberalismo ia um tanto pela fato da natureza do comércio, e do bem-estar por ele proporcionado, decorrer de uma forma naturalmente livre e não conduzida. Enfim, esse é um livro altamente recomendável. Pessoas como Pessoa fazem no tempo de hoje, e por cá, no Brasil, muita falta. Ed. Zahar. Preços de R$ 31,86 à 44,00. Pags: 173 .Avaliação: Essencial.

2. O Economista Clandestino. Tim Hardford. A proposta do livro é apresentar os problemas cotidianos que surgem na área de economia, e as soluções apresentadas pelos economistas a esses mesmos problemas. Muitos desses problemas as pessoas nem desconfiam que possa ter relação com economia, mas são na verdade temas muito estudados. Minha edição da Record traz uma capa com os dizeres: "Por que os ricos são ricos, os pobres são pobres e você nunca consegue comprar um carro usado decente". Esses dizeres dão um toque ireverente e Tim Hardford irá tratar de temas como preços no supermercado, planos de saúde, trânsito nas cidades, ecologia e desenvolvimento. Todos os temas já são microeconomia mainstream, porém, o alcance dessa economia ao grande público é um pouco difícil. Hardford logrou difundir esses temas conhecimentos e soluções dos economistas a um público mais amplo. Depois desse livro me tornei fã do seu autor, coloquei o blog do autor na listas de links sugeridos. Para um economista mais afinado com os temas de microeconomia (teoria da informação imperfeita, risco-moral, tragédia dos comuns, seleção adversa, teoria dos jogos, e economia comportamental) o livro não apresenta temas novos. O que muda é a forma de exposição que é muito didática, com bons exemplos para se utilizar e repassar o conhecimento em sala de aula. Eu adoto esse livro como leitura complementar em meus cursos (há também uma boa resenha um pouco maior que esta em realtrading). Ed. Record (Obs. Esse livro tem edição similar com foto de um ovo na capa: A Lógica da Vida, também da Record). Preços de R$ 35,70 a 44,90. Pags: 333. Avaliação: Muito Bom.

3. O Andar do Bêbado. Leonard Mlodinow. O andar do bêbado. Familiarizados com economia e estatística saberão o porquê desse título curioso. O Andar do Bêbado vem de random walking, passeio aleatório e quer dizer como uma série de dados se comportam aleatóriamente em torno de uma tendência. O bêbado tem um andar cambaleante (aleatório) mas mesmo assim consegue chegar em casa (tendência central), veja mais ou menos como funciona aqui. Eu ganhei esse livro de presente de uma forma um tanto por acaso, em um amigo oculto de livros onde as pessoas podiam "roubar" os livros umas das outras, em novembro de 2009. Como fiquei por último no sorteio, pude escolher, e o título que mais me chamou atenção foi esse. Pois bem, li o livro em uma semana e comprei uns quatro exemplares para presentear amigos. Mlodinow trata da história da estatístca com boas curiosidades sobre a formação de pensamento. Para os economistas, é interessante os tracks de confirmação apresentados. Exemplos de economia comportamental. O tema é de que a aleatoriedade tem um aspecto de imprevisibilidade e determinação mais importante do que lhe temos conferido. Esse é o mesmo tema de "A Lógica do Cisne Negro" que tratarei mas abaixo. Mas achei "O Andar do Bêbado" mais objetivo e fundamentado. Ed. Zahar. Preços de R$ 19,90 a 45,50. Pags: 261. Avaliação: Muito Bom.

4. Economia Sem Truques. Carlos Eduardo Gonçalves e Bernardo Guimarães. Um dos melhores livros de autores nacionais nessa linha de livros de economia para difussão ao público leigo. Uma boa resenha foi feita pelo prof. Rodrigo Menon Moita, que conheci em Brasília em curso preparatório da ANPEC (fiz a matéria de matemática com Cecília Menon, sua esposa). Utilizei um capítulo como referência de um artigo sobre a meia-entrada que estou escrevendo. O livro é cheio de interessantes casos exemplos, assim como o livro do Tim Hardford. Traz aplicações dos temas de microeconomia ao comportamento cotidiano, explorando bem os alcances das teoria dos incentivos, que levam as pessoas tomarem decisões baseadas em alguma racionalidade, e quais as consequências disso em uma série de medidas que temos. O livro desvela muita coisa que o conhecimento comum desconhece ou deixa de considerar. Esse livro em questão tem uma faixa de preços um pouco acima da média do mercado. Será que oferta e demanda explicam? Ed. Campus. Preços de R$ 41,80 a 54,90. Pags: 224. Avaliação: Muito Bom.

5. Econopower. Mark Skousen. Skousen é um economista declaradamente austríaco, isso o põe na linha de ser mais libertário e liberal do que os economistas mainstream. Mas uma das boas vantagens de Skousen é que ele não desconsidera as vantagens dos conhecimentos adquiridos na principal corrente da economia. Então o livro se propõe a tratar de temas diversos, e Skousen se propõe a lançar um olhar austríaco sobre a pauta neoclássica. Creio que ele foi bem sucedido, Econopower é um livro mais cadenciado do que os demais livros de economia para leigos, trata de mais assuntos na forma de capítulos curtos. Acho que os economistas mais tradicionais vão apreciar mais o Econopower, pois apresenta os conceitos novos de uma maneira mais a antiga, isso é uma vantagem, pois o livro ficou organizado e autor conseguiu pôr 37 capítulos em 243 páginas, os capítulos são curtos e agradáveis de ler. Por não ser da nova geração, Skousen não se apropria muito bem de alguns conceitos, faz uma defesa do padrão-ouro e pequenos pontos ocasionais que não comprometem o resultado. O preço pode estar um pouco salgado, mas ressalto o poder de concisão de Skousen. Ed. Campus. Preços de R$ 44,03 a 73,00. Pags: 243. Avaliação: Muito Bom. Confiram a capa da edição em inglês, mais divertida, não?!

6. Freakonomics. Sthepen Dubner e Steven Levitt. Surpresa! Eu li Freakonomics já há algum tempo e farei a resenha de memória não tão recente. Esse foi o livro que revelou aos editores que economia pode vender bastante. O livro é muito bom traz casos inesperados e tem um raciocínio lógico bastante fino. O livro é leitura importante, pois apresenta alguns achados úteis da área microeconômica e comportamental, tal como aquele de que a criminalidade pode estar realcionado à queda da fecundidade e a políticas que permitiam o aborto, que nomes e a indicação de raça implicita neles, podem incutir uma discriminação salarial, e que a mais honesta das pessoas reage a incentivos e que sistemas são falíveis, como o caso de professores recompensados pelas notas dos alunos tentados a adulterar as notas. Recomendo esse livro mais aos não-economistas, pois os achados serão mais reveladores para estes. mas alerto que tomem cuidado, o texto conduzido principalmente por Dubner, é uma leitura por demais enaltecedora dos trabalhos científicos de Levitt. O que Dubner apresenta como achados extraordinários e feitos de uma inteligência sem igual de Steven Levitt, nada mais são do que uma forma corriqueira de pensar e de analisar os problemas de economia. Na verdade, esse livro tem também o efeito perverso de fazer parecer que achado bom é aquele imprevisto, e não é muito assim, existem uma série de achados relatados em freakonomics que requerem maior rigor causal. Mas de uma forma geral os resultados que o livro mostra são importantes de serem conhecidos. Ed. Campus. Preços de R$ 41,76 a 66,90. Pags: 360. Avaliação: Bom (uma dica boa é o blog do Freakonomics).

7. Economia do Ócio. Bertrand Russel e Paul Lafargue. Organização de Domenico de Masi. Como um livro de tão poucas páginas pode ser tão essencial como esse? Nesse pequeno livro de 183 páginas de Masi organizou os dois clássicos autores que trataram de como a sociedade pode migrar de onde muitos trabalham para sustentar o ócio de poucos, para uma sociedade com mais opulência onde o leitmotiv seja o lazer e bem estar cultural proporcionado por um mundo onde o homem não seja escravo do próprio trabalho. Bertrand Russel é o conhecido matemático e filósofo da virada do século XIX para o séc XX, socialista moderado, pregava uma mudança para o socialismo por meio do convencimento, pacifista e favorável ao livre comércio. Grande parte de suas idéias continuam atuais, os excertos de Russel nesse livro são da coletânia Elogio ao Ócio, nessa coletânea Russel apresenta o argumento que devemos desapegar da ética do trabalho que faz com que se trabalhe e corra sempre atrás do tempo, o livro é de 1935 e já há pontos debatendo os pontos falhos do keynesianismo e sua enfase no trabalho (mesmo que inútil) apresenta também pontos contra o marxismo em vigor e acensão naquele momento. De particular interesse aos economistas é o capítulo "Finanças do Ócio" em que discorre sobre a inutilidade do padrão-ouro. E de como os resultados de crise de 1929 poderiam em grande parte serem evitados se houvesse mais racionalidade no tratado de Versalhes. O socialismo e algumas soluções de B. Russel são ainda utópicas e controversas, naquele tempo acreditava-se ainda, ser possível um perfeito planejamento central, talvez porque o mundo fosse mais simples, a guerra havia sugerido que algum planejamento era possível para nortear a economia, porém parte-se de uma premissa que hoje não se confirma: "Sem dúvida é possível o governo cometer erros de cálculo, mas é menos provável que o faça do que o indivíduo privado, pois tem à sua disposição um conhecimento muito mais completo da realidade". Mas aí se incorre no erro de que era possível se processar racionalmente informações, mas isto se revelou impossível por meio das experiências soviéticas e de outros países com regime econômico de controle. No mais, os erros são de diferentes proporções, no lado privado quando um indivíduo ou firma erra, outro estará em outro ponto, acertando, no caso do estado o erro de estado pune a todos indistintamente. Nos pontos controversos sobram uns aforismos que podem ser considerados dentro do senso de humor do autor: como na questão de que as mulheres educadas perdiam muito tempo com cultura inútil e escolhendo caros e ridículos chapéus (aquele trabalho poderia ser usada para coisa mais proveitosa) ou poderíamos ainda hoje concordar com a afirmação de que "Hoje em dia, os livros sobram em quantidade na mesma proporção em que carecem de qualidade", mas essas são questões de gosto e Russel está sendo muito pouco utilitarista nesse ponto. Paul Lafargue era um pensador francês e socialista, mas também defendia uma revolução pela libertação do trabalho, ressaltando aspectos caros aos socialistas que são a abundância material e o combate à loucura da superprodução. Seu ponto principal é de que a burguesia havia incutido um ideal de trabalho aos pobres que colocava os trabalhadores em condições sub-humanas por motivos desnecessários, já que toda aquela mercadoria não seria vendida. Aponta ainda que o natural do homem é o não trabalho e aponta essa contradição na recém assinada carta dos direitos humanos à frança, que pregava o direito ao trabalho. Mas o trabalho para os mais pobres naquele tempo era punição pior do que a escravidão. Ed. Sextante. Preços de R$ 19,90 a 19,90. Pags: 183. Avaliação: Essencial.

8. A Lógica do Cisne Negro. Nassim Nicholas Taleb. Taleb é um cético, arrogante, iconoclasta e pouco educado autor. Ele ataca Deus e o mundo salvando alguns poucos gatos pingados de sua predileção. Como Taleb não tem papas na língua, também não terei freios ao criticar o livro dele. O ponto do Taleb é algo parecido com o de Mlodinow, Taleb ressalta o papel do imponderável, de que não dá para prever acontecimentos baseados apenas em informações passadas. É muito interessante o didatismo de Taleb na exposição de coisas que pertencem ao Mediocristão e de coisas do Extremistão. Na linguagem do autor Mediocristão é o país onde as coisas são regidas por uma distribuição normal e se tornam relativamente fáceis as previsões. Taleb estabelece que fenômenos físicos conhecidos como altura e peso das pessoas obdecem a essa regra, um grande desvio de peso de uma pessoa não impactará demais na média. O contrário ocorre no Extremistão, onde a curva normal não tem vez, Taleb tem ojeriza da curva em formato de sino, mas isso vem de que ele não a conhece muito bem. Na verdade, Taleb não parece conhecer muito bem de estatística e provoca dizendo que a Normal é a GFI - Grande Fraude Intelectual. Dedica a parte três do livro a um malogrado ataque à curva normal. Mas os argumentos de Taleb são falhos. O autor está certo em ressaltar que ele não precisa "provar" uma outra distribuição para desqualificar a normal, inclusive Karl Popper faz parte de um dos eleitos que Taleb coloca em um pedestal. Está certo em mostrar casos em que a normal não funciona e mostrar que quem confia piamente costuma errar previsões. No entanto, refutar um argumento não mostra que o seu argumento alternativo está correto (não há confirmação de hipótese) e Taleb parece convenientemente esquecer disso. Pra finalizar a crítica eu diria que Taleb tem contato com gente muito ruim de serviço e não sabe nada de estatísticos. Na verdade, estatística não é SÓ pra fazer previsão, eu diria que esse é um campo menor de aplicação da estatística. Muitos dos contra-exemplos de Taleb não funcionam porque após uma transformação, logarítmica ou outra transformação qualquer, as distribuições a que ele se refere passam a ser normais. E os estatísticos possuem uma ampla gama de conhecimento de outros fenômenos não regidos por uma normal, e muitos ressaltam que o papel da matéria é pela explicação de fenômenos e não a sua previsão. Eu sou a favor do ponto de que previsões são logicamente imponderáveis e tenho minha própra coleção de exemplos que mostram situações em que economistas erraram fragorosamente ao tentar fazer previsões, mas acho que Mr. Taleb está muito por fora, ele tenta ser um iconoclasta, mas para isso é necessário muito mais substância sobre o que se está dizendo, coisa que Taleb não faz. Ele tem muita erudição e é um cético contra o platonicismo que às vezes leva a inutilidade, o que é coisa muito boa, mas é metido e arrogante e desrespeita o leitor. Ao longo do texto ele faz um chiste com o nome de uma autora chamada Yevgenia, que não existe e ao final ele não diz de quem se trata a tal mulher ou se é ficção de sua própria autoria. O livro poderia ter uma avaliação boa se Taleb encurtasse o número de páginas e fosse mais objetivo. Para a minha avaliação, ele me fez um calhamaço de 457 páginas onde 350 foram puro desperdício de tempo. Ed. Best Seller. Preços de R$ 26,91 a 39,90. Pags: 457. Avaliação: Dispensável.

9. De Cuba com Carinho. Yoani Sánchez. Acho que esse livro será muito importante para entender a fase atual de transição do regime Cubano. Cuba caminha para uma maior liberação pela simples falência do regime socialista. E a blogueira Yoani Sanchez (do blog Geração Y) que ficou famosa por amar Cuba, mas lutar para ter acesso à parca e precária internet da ilha e por apontar os inúmeros defeitos e contradições presentes cotidianamente no seu país. O próprio nome do blog da autora é um caso curioso de como a manifestação controlada de alguns canais de comunicação, no fim dos anos 70 e início dos anos 80, levou toda uma geração de pessoas a batizarem seus filhos com a letra Y na inicial do nome, uma manifestação silenciosa pela diferença. Yoani Sánchez conta situações criadas pelo controlismo social e econômico e o absurdo que isso gera, não é necessariamente contra o socialismo, mas a favor da liberdade, o que a torna um arauto, divulgadora das ânsias de libertação das pessoas da ilha ,que querem poder desfrutar o mundo com liberdade e igualdade. Os textos são retirados do blog da autora, mas achei importante a compra do livro, espero que boa parte do dinheiro vá mesmo para Yoani, acho a leitura importante para os que amam a liberdade. E mesmo que não intencionalmente, Yoani defende um sistema que só a liberdade capitalista pode proporcionar. Ed. Contexto. Preços de R$ 25,41 a 33,00. Pags. 204. Avaliação: Muito Bom.

10. O valor do amanhã. Eduardo Giannetti. O valor do amanha ficou conhecido por uma série que apareceu no fantástico. O livro trata do papel do tempo na decisão das pessoas. Como as pessoas racionalizam o tempo, como tomam decisões racionais considerando os seus efeitos. Giannetti fala das taxas de juros biológicas, sobre a persistente subestimação do futuro. É quase um tratado sobre os juros e sobre as decisões no tempo. Giannetti escreve de maneira admirável e o livro perpassa temas tais como poupança e investimentos, decisões de consumo, tempo e dinheiro e o envelhecimento e atitudes intertemporais. Conclui o livro falando sobre quais são as implicações sobre o desenvolvimento. Ed. Companhia das Letras. Preços de R$ 37,80 a 52,00. Pags: 337. Avaliação: Muito Bom.

11. Gobalização e seus malefícios. Joseph Stiglitz. Eu já gostei mais desse livro, talvez seja por tê-lo lido há muito tempo atrás, hoje acho algumas de suas conclusões parecem incorretas , o diagnóstico é simplista e a atribuição de causalidade muito rápida. Existem vários defeitos nele, a começar pelo título, ao contrário do título o livro não irá falar de Globalização, mas sim da orquestração das finanças globais dada pelo FMI e dos empréstimos do Banco Mundial. A postura de Stiglitz é bastante crítica à atuação do Fundo Monetário e aos empréstimos do Banco Mundial. Em verdade, esse livro marca um turning point na carreira de Stiglitz em que ele passou a ser menos um economista acadêmico e mais um economista midiático. As críticas do autor se pautam mais no processo de condução da transição do regime socialista do leste europeu, mas ele confere um peso demasiado do FMI tanto no combate quanto no papel de retirada dos países da pobreza e na determinação de crises e bom desenvolvimento econômico. O receituário dele é um Keynesianismo renovado, em alguns casos creio que correto, no caso dos países do leste europeu Stiglitz trabalhou o ponto de melhor forma em "White Socialism". No caso dos países asiáticos, acho que seus ataques são um tanto inapropriados. Ed. Futura. Preços de R$ 54,00 a 54,00. Pags. 325. Avaliação: Dispensável. (Há uma resenha mais favorável do Henrique Chagas, aqui).

12. Sexo, Drogas e Economia. Diane Coyle. O melhor desse livro é o nome. Sexo drogas e economia pretende ser mais um livro descolado de economistas, mas não consegue surtir muito efeito. A tradução para o português está mal feita, trata regressões econométricas como se fossem regressões ao passado da psicanálise. Além deste há mais alguns outros absurdos como "taxa de interesse" que não foi traduzida para "juros" e coisas do tipo. Isso não poderia comprometer a coitada da autora que não tem muito haver com a tradução que fizeram do seu livro. Mas afora a tradução o livro é fraquinho. Traz casos interessantes de aplicação da economia aos temas do sexo e das drogas e estão bem conduzidos esses capítulos. Assim como um capítulo em defesa da economia. Diane Coyle é uma jornalista de economia reconhecida, mas em alguns pontos ela não domina o assunto com muita propriedade e o capítulo dos efeitos da radiação solar na economia ficam mal postos no livro e o comprometem. Além de passagens por demais simplificadoras que demonstram não uma clareza de exposição mas sim uma não-compreensão completa do tema. Ainda assim o livro é bom de ler. Ed. Futura. Preços de R$ 44,00 a 44,00. Pags. 325. Avaliação: Dispensável.

As pesquisas de preços foram feitas utilizando o buscador buscapé.

Prováveis próximos participantes do Cardápio de leitura:

1. Most Harmless Econometrics. Angrist e Pischke.

2. Animal Spirits. Akerlof e Shiller.

3. Salvando o Capitalismo dos Capitalistas. Rajan e Zingales.

4. A revolta de Atlas. Ayn Rand.

4. O banqueiro dos Pobres. Yunus.

5. Alan Greenspan. Biografia de Alan Greenspan.

6. Sob a Lupa do Economista. Carlos E. Gonçalves.