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terça-feira, 26 de maio de 2015

Cardápio de Leitura III

Nada como a morte para trazer de volta a vida. A morte de que estou falando é de ninguém menos do que o matemático John F. Nash que morreu junto com sua esposa Alícia (também matemática) na madrugada deste último sábado (23/05/2015). A vida de que estou falando é a deste singelo Blog, que estava às traças e quase quase morrendo. Amigos tem me perguntado se ele morreu ou não. Pois bem, ainda não, tenho tentado de encontrar tempo, como sempre :-)

Longe de querer comparar esse blog a alguém da envergadura de John Nash, o que pretendo fazer aqui é uma pequena homenagem, e nada melhor do que resgatar a excelente biografia escrita pela jornalista econômica Sylvia Nasar. O livro 'Uma Mente Brilhante' foi, sem dúvida, um dos livros mais interessantes que li no ano passado, e de certa forma um dos livros mais interessantes que li em minha vida (não apenas os de economia, então, já digo que o livro se aproxima do que podemos chamar de alta literatura).

Aproveito a oportunidade e incluo outros livros nessa carreirada. Vamos a eles, lembrando novamente a ordem de classificação para o incauto leitor (que não tem a obrigação de lembrar a ordem, porém recaí sobre mim a obrigação de lembrar-lhe a ordem para facilitar e leitura):

___________________Essencial Muito Bom > Bom > Dispensável > Deplorável

Seguem os livros.


1. Uma Mente Brilhante: Essa resenha vai com um pouco de história pessoal. Primeiro vamos aos detalhes menores, como o subtítulo da capa já diz (veja a figura), esse é o livro que inspirou o famoso filme de mesmo nome lançado em 2002, vencedor do Oscar de melhor filme daquele ano (além de 3 outros prêmios). Sei que é um lugar comum escrever isso, mas o livro é um quintão de vezes melhor do que o filme. O filme tem umas passagens imprecisas sobre a teoria dos jogos, esconde aspectos recônditos e obscuros da vida de Nash e nos retrata somente uma faceta um tanto aguada do personagem que foi John Nash. Por mais que você tenha gostado do filme, recomendo fortemente ler o livro, bem capaz que irá gostar ainda mais do livro. Caso não tenha gostado da versão de Hollywood, recomendo que dê mais uma chance para conhecer a vida deste brilhante matemático. Se você é economista ou trabalha com a área de teoria de jogos, já te adianto minha sentença classificatória: 'esse livro é essencial!'. Pois bem, vai aí um pouco de história pessoal. Desde a época do filme, quando eu ainda estava no meio da minha graduação de economia, eu já sabia que existia um livro biográfico sobre o Nash, porém nunca havia topado com ele em livrarias e naquele tumulto da vida diária eu nunca havia me lembrado de buscar, nem tinha certeza se já havia sido traduzido (não que me importasse muito). Pois então, no começo do ano passado, encontrei na livraria Saraiva em Brasilia um destaque para um outro livro da Sylvia Nasar: A imaginação Econômica (Ed. Companhia das Letras), foi aí que lembrei que Sylvia Nasar havia escrito a biografia de Nash e tive a sorte de achar 'Uma Mente Brilhante' na mesma livraria, e em uma edição com um excelente custo benefício da Editora BestBolso subsidiária da Record (quem tiver interesse corre no link do nome do livro que ainda está com o preço de R$ 29,00 no site). Pois bem, levei os dois livros e comecei a ler pelo livro do Nash, por conta da ordem cronológica e por bem ou mal a vida ter me levado a trabalhar um pouquinho sobre Teoria dos Jogos, então, foi o livro pelo qual decidi começar. O livro começa como uma biografia usual, mas tem um aspecto bem interessante, como bem pontuou Célia Teixeira em resenha feita para o site do Oswaldo Buzzo, Nash viveu em dois mundos opostos: o da Racionalidade e o da Loucura. Esse é um tônus interessante para o Livro, Nasar levanta a hipótese de que Nash muito provavelmente possuía traços de esquizofrenia, uma das doenças neurológicas de mais difícil compreensão. Pouco a pouco vamos acompanhando a relação disso com o gênio matemático de Nash, o livro levanta inclusive a questão de se tal doença catapultava a genialidade de Nash ou se a diminuía ou atrapalhava. O certo é que os anos de tratamento de Nash foram muitos penosos (psiquiatras ainda divergiam sobre a eficácia de tratamentos e precisão de diagnósticos), a autora descreve esses anos também com grande detalhe, o que ajuda a explicar porque Nash ficou no ostracismo por tanto tempo. Independente da doença, Nash tinha uma personalidade interessante, seu talento matemático se mostrou incomum e sua forma de abordar a matemática era atacar de frente grandes problemas. Talvez Nash tenha sido um dos últimos grandes matemáticos generalistas que a matemática do século XX criou, atacava problemas de áreas que iam desde a Álgebra, Cálculo Diferencial, Equações Diferenciais, Teoria dos Números, Geometria Analítica e matemática aplicada (na qual se enquadra a Teoria dos Jogos). Uma das contribuições matemáticas mais importantes de Nash foram seus trabalhos relacionados às equações de Navier-Stokes, pela qual recentemente recebeu o prêmio Abel da Matemática (quase equivalente à Medalha Fields).

Nash era um sujeito intrigante, ao mesmo tempo arrogante e implicante (como prova disso, há a passagem que mostra a ousadia que Nash teve de marcar um encontro com o físico Albert Einstein para explicar aperfeiçoamentos matemáticos à física, isto quando Nash era apenas um aluno de pós em Princeton e Einstein já era tido como o papa da física contemporânea). Mas não há dúvida de que Nash era genial, porém, um pouco de sua arrogância, petulância e jeito de ser fizeram Nash conquistar alguns inimigos nos tempos de mestrado e como professor. A matemática esperava muito dele, e ele mesmo esperava muito de si, os desenvolvimentos das Teses em Teoria dos jogos não foram muito bem recebidos entre os matemáticos, que esperavam desenvolvimentos mais desafiadores da parte dele. Pois bem, a doença jogou Nash alguns anos no ostracismo, mas na área de economia seus trabalhos floresceram dando origem a toda uma área de pesquisa que cresce ainda hoje. É claro que a área deve seu tributo à Von Neumann & Morgenstern, autores do primeiro livro didático organizado sobre o tema, e também pode se dizer que o equilíbrio de Nash era apenas uma generalização do equilíbrio que já havia encontrado Antoine Augustin Cournot (1801-1877), mas Nash conferiu ao conceito, que posteriormente ganhou seu nome, uma generalidade e uma formalização que nenhum outro matemático ou economista havia conseguido, e por isso passou a ser tão citado e lembrado.

Para quem gosta do raciocínio matemático o livro é um prato cheio, a autora não se furta a colocar os detalhes dos pensamentos que guiaram muitas das soluções presentes na vida de Nash e como ele chegou a elas. Para quem não gosta, não precisa ter medo, se me lembro bem, em hora nenhuma, Nasar lança mão de escrever as equações, ela explica o raciocínio sempre na forma de palavras. Para quem gosta de biografias é também uma excelente recomendação. Mais ainda, o livro te prende do início ao fim, as partes que achei mais angustiantes foram as da internação do Nash e seu tratamento à base de injeções de glicose que quase o mataram. Há também um lado humano na obra e na vida do personagem, um homem como todos nós, com defeitos e qualidades e bastante idiossincrático. Foi também um prazer ler esse livro no ano passado, pois eu o li enquanto estive em São Paulo em um evento que contava com a presença do próprio biografado, foi de certo modo um tanto estranho (e talvez um pouco injusto) conhecer e ler sobre a pessoa ao mesmo tempo em que se tomava contato com ela nas apresentações acadêmicas e nos almoços e coffee breaks do evento. Durante todo o evento Nash pareceu um cara muito simples e educado, sempre acompanhado de Alícia que o ajudava e parecia grande companheira.
Ed.: BestBolso, Preço: R$ 29,00. Avaliação: Essencial.

2. O Sinal e o Ruído: por que tantas previsões falham e outras não. Explicar o título desse livro já ajuda a elucidar um pouco o tema. Nos primórdios do rádio era quase impossível se obter uma transmissão clara o suficiente para ser compreendida, sempre havia um componente de ruído (erro) que precisava ser minimizado. Quando ele foi minimizado o aparelho se tornou um sucesso, tanto que foi o precursor da TV (que também tem sinal e ruído). Muitas vezes, a informação passada tinha tanto ruído que se tornava incompreensível, ou por conta do erro, o que o emissor falou como RATO poderia ser entendido como PATO, e aí a confusão de interpretação estava dada. Era preciso destrinchar o sinal entre os inúmeros ruídos presentes em uma mensagem transmitida. Da mesma maneira pode ser entendido o trabalho de um estatístico, o mundo e a natureza estão sempre mandando informações. Nessas informações que a natureza nos envia podem existir padrões discerníveis (os sinais) ou apenas incompreensão e padrões desencaminhadores (o ruído). Se os estatísticos forem capaz de entender padrões podem se tornar especialistas em prever quando determinadas situações irão ocorrer, essa é a premissa de Nate Silver para escrever esse livro. Nate Silver é um estatístico com interesses diversos, desde previsões eleitorais até o Baseball. Ele é um dos nomes por trás do site FiveThirdyEight, blog especializado em dados e previsões dos diversos assuntos. Nate Silver sabe que fazer previsões não é fácil, ele respeita a dificuldade de se fazer previsões em diversas áreas. O autor começa então com as áreas em que foi possível se fazer previsões mais acuradas como previsões de corridas eleitorais (que precisam ser conduzidas de uma forma um pouquinho diferente nos EUA), o Baseball e como usar o scout de jogadores para montar um bom time (quem quiser ter uma boa ideia sobre isso pode ver o filme Moneyball), e a previsão do tempo, que é dificílima, mas tem tido um considerável sucesso. Daí o autor passa a se dedicar aos temas difíceis: previsão sísmica, epidemiológica (para a maioria das doenças) e econômica. Esses são apenas alguns dos exemplos, há vários capítulos interessantes no livro, o qual tive muito prazer de ler (tem até um capítulo sobre o Xadrez e outro sobre Pôquer :-)).

Silver não é condescendente com os economistas, ele mostra que o meio possui um excesso de confiança e não confere muito suas previsões, ou seja, tanto na economia quanto nas finanças as previsões são de má qualidade. Na verdade, como disse no começo, para se aventurar em uma previsão é preciso ter um discernimento muito bom do que é sinal e o que é ruído, o que nem sempre é fácil. Na economia Silver entende que é bem difícil fazer isso, mas o autor discute também que as previsões poderiam se bem melhores se os economistas e profissionais do meio tivessem o costume sincero de revisar suas previsões. O livro faz uma boa discussão entre a diferença entre acadêmicos levantadas a partir do trabalho de Tetlock, que tipificou especialistas de ciência política entre raposas e porcos-espinho (os créditos da tipificação de devem ao filósofo e ativista israelense Isaiah Berlin). As raposas seriam os especialistas maleáveis e bons em fazer previsões, pois reúnem todo o tipo de informação, sendo um pouco mais flexíveis para adotar diferentes teorias, já os porcos-espinhos são diligentes, mas procuram encaixar cada pequeno pedaço de informação em um framework maior, levando-os a ser ferrenhos defensores de uma teoria, mesmo que errada. Uma das lições de Nate Silver é de que os especialistas raposa são os melhores em fazer previsões, porém são os que menos aparecem na TV pois, às vezes, seu discurso não é cativante o suficiente para o apelo midiático. E o autor conclama os leitores a se tornarem mais raposas (por mais que eu não goste disso por ser torcedor do Galo, tenho de concordar sobre esta questão nesse contexto).
Ed.: Intrínseca, Preço: de R$ 29,90 a R$ 49,90 Avaliação: Muito Bom.

3. Os problemas do milênio: sete grandes enigmas matemáticos de nosso tempo. Não sei se vocês conhecem, mas este livro é sobre os 7 problemas matemáticos que valem um milhão de dólares, prêmio concedido pelo Clay Mathematics Institute (CMI), fundado pelo milionário americano Landon Clay, formado em Letras mas entusiasta da matemática. O CMI reuniu uma equipe de matemáticos para propor quais seriam os problemas mais importantes para a matemática responder no próximo milênio, ou seja, problemas que se resolvidos podem abrir novas fronteiras na matemática, gerando mais problemas interessantes e solucionando uma série de subproblemas derivados. O espírito dos problemas do milênio pegam carona nos problemas propostos em 1900 em Paris por David Hilbert. Naquela ocasião, Hilbert, grande matemático da virada do século XIX para o XX, discursou sobre 23 grandes problemas não resolvidos da matemática. Por isso no ano 2000, o CMI decidiu lançar uma série de problemas sobre os quais os matemáticos consensualizavam serem os mais importantes. O autor do livro, Keith Devlin é gabaritado para falar do assunto pois fez parte da equipe responsável por escolher quais seriam os problemas mais importantes a serem resolvidos. Não fosse por Devlin ter se dedicado também a difusão e comunicação da matemática em livros anteriores tal como 'O Gene da Matemática', esse seria um livro extremamente difícil, pois alguns são problemas com que matemáticos lidam por mais de um século tal como a Hipótese de Riemann. Então, os problemas sobre os quais o livro trata não são para amadores. Devlin escolhe escrever o livro e apresentar os problemas por ordem de familiaridade começa pela 1. Hipótese de Riemann; 2. Teoria da Lacuna de Massa (Yang-Mills); 3. Problema P vs. NP; 4. Equações de Navier-Stokes, que um matemático alega ter resolvido, acho que ainda não deu tempo para o Clay Institute verificar a prova, essas coisas tomam um pouco de tempo e por isso anida não está no site do CMI como resolvida; 5. Conjectura de Pointcaré (a única que o instituto considera solucionada); 6. A conjectura de Birch e Swinnerton-Dyer; 7. Conjectura de Hodge. Enfim, o livro trata de problemas matemáticos bem difíceis, tanto que Devlin escrevendo nem parece crer que alguém poderá chegar ao final da leitura, fica toda hora recordando: "se você chegou até aqui...", na verdade essa pouca confiança no leitor é o que mais me irritou no livro, que de resto é muito bom interessante. Ressalto novamente que a proposta do livro não apresentar os problemas de forma que o desavisado leitor saia resolvendo os problemas, apenas fazer uma divulgação ampla da matemática de fronteira. O livro não exige do leitor conhecimento muito aprofundado de matemática além de um interesse honesto. Entre os livros que escolhi nessa seção esse foi um dos que mais me fez deitar a leitura e ficar pensando, os problemas não são fáceis, mas acho que Devlin alcançou seu objetivo, ao terminar o livro dá pra ter uma ideia boa do que tratam os problemas do milênio e o quê os matemáticos de ponta têm feito ultimamente. Isso não é um problema ou defeito do livro, mas eu acho que os problemas do milênio colocam muito foco sobre si, e existem uma série de outras áreas e problemas não resolvidos da matemática, tal como denota a medalha Fields, a qual o brasileiro Artur Ávila ganhou ano passado por seus trabalhos sobre a teoria do Caos (Legal de conferir também há um indiano trabalhando com problemas relacionados ao problema P vs NP, ele ganhou o Rolf Nevanlinna Prize). Enfim, para quem é honestamente interessado em matemática o livro é muito gostoso de ler e Keith Devlin conduz os capítulos muito bem. Em comparação com o livro das grandes equações que fiz resenha aqui no blog esse livro é um pouco melhor ou mais difícil pois trata de temas menos corriqueiros, mas porem menos abrangente.
Ed. Record, Preços: de R$ 58,41 pra cima (da Gradiva, não encontrei mais a edição da capa acima que é a que eu tenho); Avaliação: Muito Bom.

4. Os Pecados do Capital: o guia politicamente incorreto do Capital. Esse livro parece um pouco ter sido escrito por um dos porcos-espinhos do Tetlock, mas possui méritos. A proposta é apresentar ao leitor a perspectiva da economia austríaca sobre diversos assuntos econômicos. Porém as evidências do livro são anedóticas ou então com o uso de referências de outros economistas famosos. O prof. Robert P. Murphy é bem quisto entre os economistas de cunho libertário, suas credenciais são dos economistas e professores da área que atuam junto ao Von Mises Institute. A ideia do livro é partir do geral para o específico apresentando uma série de cases que mostram como o Estado atrapalhou a vida dos seus concidadãos, em alguns desses casos eu concordo, até sou simpático a perspectiva mais libertária, mas muitos outros casos as informações apresentadas por Murphy são questões de interpretação. Na verdade, para mim um ponto problemático com a escola Austríaca é que seus economistas são pouco afeitos a coleta de evidências (são em geral porcos-espinhos) depois eles creem demais no poder redentor do capitalismo. Ou seja de que a liberdade civil e econômica fornecem as únicas e exclusivas ferramentas para a prosperidade. "Por que a escravidão acabou?" -Por causa do capitalismo. "Como podemos resolver o problema do trânsito?" - Tudo bem, deixe que o capitalismo resolva. Enfim, se você é um economista com formação séria você pode dispensar de ler esse livro, pois as resposta em todos os capítulos é "O capitalismo resolve", pronto, sabendo-se disso você já tem a mensagem do livro. Um grande problema dos Austríacos (além do pouco apego a evidências contrárias que já comentei) é que a maioria deles não incorporou a teoria dos jogos, suas evidências e ensinamentos. Confiam demais na decisão descentralizada levando a um ótimo de Pareto. Mas a teoria dos jogos e das falhas de Mercado possui uma coleção de evidências mostrando que sim existem equilíbrios de Nash sub-pareto ótimos. Ou seja, há diversas situações que os austríacos falam que irão dar certo que desprezam interações importantes entre os agentes e que possuem peso. Eu gostaria mesmo que o mundo fosse simples como os austríacos gostam de pintar em diversos casos, mas não é. Um ponto em favor do livro e da doutrina é que muitas vezes o custo de intervenção é bem maior do que deixar o mercado funcionar (esse é um ponto que o pessoal de esquerda geralmente desconsidera). Se você comunga de uma ideologia de esquerda pode ser importante ler esse livro de mente aberta para ver que nem todos os argumentos em prol do governo são tão imediatos. Se você não é um economista formado, vem de outra área, também acho que a leitura pode trazer algo de útil, para um economista neoclássico sério, o livro tem pouco a acrescentar em sofisticação de análise. Para os que já são fãs da escola austríaca, vai aí uma advertência: "Cuidado, amigo, você pode estar entrando numa religião, tão perigosa quanto o socialismo marxista." Eu rogo mesmo que os austríacos fossem mais científicos e mais baseados em evidência, mas até hoje não encontrei nenhum nesse sentido, pode ser, de fato, um honesto desconhecimento, mas pode ser também (e isso o pessoal da escola tem de tomar cuidado) que a economia austríaca seja simplesmente inconciliável com os métodos científicos. E aí o livro cai na categoria de doutrinação e prazer anedótico. Mais liberalismo é bom, mas desde que fundamentado em evidências. Eu gostaria muito que meus amigos de esquerda lessem esse livro, para eles ele pode ter algo de útil, porém sei que ele atingirá leitores que comungam mais dessa corrente se tornando um worship perigoso.
Ed.: Saraiva. Preços: de 33,00 a 44,90. Avaliação: Dispensável.

5. Alex no País dos Números: uma viagem ao mundo maravilhoso da matemática. Esse livro é um pouquinho volumoso, mas talvez seja um dos de mais fácil leitura aqui da lista. É na verdade um livro de curiosidades matemáticas, e muitas delas são realmente curiosas. O livro faz um apanhado histórico da matemática e apresenta a teoria basal de muitos dos usos importantes da matemática. Curiosidades como o quadrado latino ou o Sudoku ou lei das probabilidades e suas aplicações. Outras como o maior número de casas decimais do número PI até hoje calculada, esses cálculos tem implicações computacionais importantes e os procedimentos para se chegar até ele são também interessantes. Também ajuda o leitor a desvendar os segredos do infinito, contando a interessante história de Cantor e o famoso hotel infinito de Hilbert. Finaliza o livro falando de superespaços de uma maneira curiosa. Enfim, é um livro com uma coleção de curiosidades matemáticas. A proposta é apresentar a maravilha dos números, dentro dessa proposta o autor conta alguns desenvolvimentos matemáticos interessantes, fácil leitura.
Ed.: Companhia das Letras, Preços de R$ 27,21 a R$ 47,00. Avaliação: Bom.

Enfim, vou parar por aqui, há outros livros bem interessantes na lista. Quem leu a última postagem do cardápio de leitura deve se lembrar de alguns livros que eu havia prometido. Bom, alguns destes aí passaram na frente, outros já terminei a leitura e há alguns mais interessantes para entrar. Espero que tenham aproveitado as resenhas e até o próximo cardápio.

domingo, 20 de novembro de 2011

Cardápio de Leitura II (Resenhas de Livros de Economia, ou Quase)

Bem, está em tempo de começar mais um cardápio de leitura. Colocarei aqui os livros mais significativos lidos por mim mais recentemente. Ao contrário da primeira lista, que era mais voltada para livros de economia, a presente lista é um pouco mais aberta aos temas de estatística, matemática e filosofia. Acaba que envolve, mesmo que lateralmente, bastante de economia. Cabe deixar claro que o propósito da lista é o orientar a leitura (ou eventual compra) para os seguidores do blog e demais passantes interessados. E que as resenhas aqui postas possuem total viés de minha opinião, caso não concorde, procure outras resenhas "vendidas" no mercado.

Relembrando que a ordem de classificação é a seguinte:

Essencial > Muito Bom > Bom > Dispensável > Deplorável

A ordem de aparição segue a ordem de leitura desde a última resenha. Os mais recentes primeiro. Ao final, seguem discriminados três livros que ainda não estão concluídos, mas que coloco pois estão me parecendo interessantes. No entanto, o veredicto final com a classificação será dado apenas em uma próxima resenha. Pra finalizar segue a lista de espera, tal como fiz na última postagem. São muito bem vindas as sugestões. Algumas delas dadas por amigos ainda aguardam leitura.

Enfim, espero que gostem e seja útil:

1. Logicomix: Não é tão inusitado um quadrinho aparecer por aqui dado que sou fã da nona arte. Mas também não é inusitado em se tratando do tema e da condução da obra. Os autores deixam claro já no começo que a obra se pretende mesmo ser contada nesse meio e que os leitores não se enganem para não achar que é um livro do tipo: "Lógica for dummies". O roteiro é de Apostolos Doxiadis com ajuda de Christos H. Papadimitriou, dois autores gregos. Os desenhos são de outro grego: Alecos Papadatos e uma colorista francesa: Annie di Donna, dois artistas muito eficientes, o trabalho ficou primoroso. Logicomix foi minha última leitura de um dia só, apesar de suas 347 páginas (com referências). O tema é a busca da verdade por trás dos fundamentos lógicos da matemática. Para contar essa história os autores usam o percurso de vida do matemático e filósofo inglês, Bertrand Russell (novamente o Bertie aparece aqui nas resenhas) e na sua busca por conseguir provar os axiomas euclidianos e o enigma mais fundamental da Aritmética: 1 + 1 = 2. A Jornada é épica, os personagens beiram o trágico, e as dificuldades conceituais e filosóficas são tratadas com enorme eficácia. O livro narra toda a história da lógica desde os meados do século XIX até a metade do século XX, trazendo seus avanços e grandes consequências para a vida das pessoas envolvidas e das pessoas em geral. Os autores tiram algumas licenças quadrinísticas para deixar a história mais envolvente e eficaz, mas se atêm aos fatos e aos problemas envolvidos nessa busca da verdade. Dentre os personagens que aparecem no livro estão Whitehead, Wittgenstein, George Cantor, Boole, Kurt Gödel, o famoso círculo de Viena, de onde veio Von Neumann. Aparecem também Poincaré, David Hilbert, Peano, Gottlob e vários outros personagens importantes para a Lógica e a matemática do início do século XX. Além de menções a vários autores importantes, assim como aplicação rigorosa de conceitos. Tudo isso pontuado com algumas linguagens metalinguísticas dos autores e a Grécia contemporânea, que deixa um resultado final ainda mais interessante. Enfim, uma obra-prima que merece ser lida por quem se interessa pelos fundamentos axiomáticos da matemática e os limites de conhecimento científico. Alguns críticos estão rotulando como a melhor HQ de não-ficção dos anos recentes, não sei se o rótulo de não-ficção se encaixa, pois há algumas liberdades ficcionais de roteiro, e na verdade esse rótulo não interessa tanto para quem está voltado para o assunto. Ed.: Martins Fontes. Preços de R$ 39,25 (Promocional) à  R$ 69,00. Avaliação: Essencial.

2. As Grandes Equações:  Acho que antes de começar a falar sobre o livro vou elogiar um pouco aqui o catálogo da Zahar que está de parabéns. O nome da editora está quase funcionando como um selo de boa compra, parabéns a escolha editorial, espero que continue assim. A Zahar é uma editora de alguns anos de estrada com histórico de bons títulos. Mas desconheço porque motivos ela andou na segunda metade dos anos 90 e início dos anos 2000, totalmente sumida. Dê uns anos pra cá (uns 5-6 anos) ela ressurgiu com excelentes títulos no mercado. Quem tiver mais informações precisas sobre a editora pode me corrigir. Pois bem, a proposta desse livro cujo o autor é o físico-filósofo historiador da ciência Robert P. Crease, é apresentar ao público geral as 10 equações mais importantes da ciência. Crease tem uma bom fio condutor que não é só o de contar as histórias por trás dos personagens das equações (o que é muito comum nesse tipo de livro), mas tem também o compromisso de deixar claro ao leitor grande parte das idéias que embarcam aquelas grandes equações. Eu corrigiria um pouco Crease e já dou um aviso ao leitor interessado: Ciência para esse livro significa Física, como se ela fosse a única ciência importante. Com exceção da equação de preâmbulo, a tal 1 + 1 = 2 (onde novamente aparecem Whitehead e Russell), que é só um aperitivo e não entra na contagem de Crease, e as conhecidas equações de 1) Pitágoras: h² = a² + b²; e 4) Euler: e +1 = 0, estas são as duas únicas exclusivas da matemática, as demais oito equações são todas da física, a saber: 2) Segunda Lei de Movimento de Newton: F = ma; 3) A Gravitação universal: Fg = Gm1m2/r²; 5) Segunda Lei da Termodinâmica: S' - S > 0; 6) As Equações de Maxwell: aqui; 7) A celebridade na forma de equação: E = mc² (aliás esse capítulo é excelente, uma resenha do mesmo livro na net que enfoca em particular essa equação está aqui); 8) A equação da relatividade geral: Gim = -k(Tim - ½gimT); 9) A Equação de Schrödinger: aqui; 10) O princípio da incerteza de Heisenberg: ΔxΔp > h/2. Mas o fato de se concentrar nas equações importantes da física não torna o livro menos importante, pelo contrário, para o leitor bem interessado, é possível puxar a memória das aulas de física e realmente acompanhar o raciocínio que levaram àquelas equações. Isso é mais bem executado em uns capítulos do que em outros. Os capítulos 1 a 4 são muito compreensíveis sem maiores explicações. Os capítulos da termodinâmica e eletricidade são muito interessantes, mas Crease se perde tentando fazer uma analogia com um palco Shakespeariano, porque são muitos os atores responsáveis, mas ficou meio enfadonho e ele não vai fazer muita força para explicar as coisas nesse capítulo. O capítulo de Maxwell é bom, as imagens funcionam, mas o leitor fica sem saber (ou custa a relembrar com as parcas aulas de física Eletrodinâmica do 3º ano) o que são de fato as equações que estão lá. O mesmo não acontece com o capítulo do E = mc² que é extraordinário. Se vc quer saber interpretar a famosa equação esse é o livro. Os capítulos finais são bem conduzidos, mas Crease vai novamente fazer menos força para o leitor entender as equações, apesar de continuar tentando. Mesmo assim, foi uma das melhores coisas que já li sobre mecânica quântica (muito melhor que o obscuro "Quem somos nós"). Outra pequena correção eu faria que essa coisa de rodapé em final de livro eu sou geralmente desfavorável, principalmente quando o autor usa muitos e para quem gosta de lê-los, mas nada que comprometa. E há uma parte em que o autor fala brevemente de ciências humanas meio que na defensiva e como um alerta para os cientistas sociais serem mais mente aberta e superarem a sua falta de conhecimento técnico, que ele chama de "anosognosia". Como exemplo, Crease fala de um livro de popular de História nos EUA que não tem nenhuma menção aos grandes avanços da ciência que mudaram as vidas de mais gente do que as guerras, conflitos, intrigas políticas e etc. Todavia, não dá pra entender 100% porque Crease coloca esse interlúdio no final de um dos capítulos. É uma alerta, mas sem dizer mais sobre isso, ele seria um tanto dispensável. Enfim, o livro é muito gostoso de ler. Pensei se não seria legal ter uma versão para as equações da economia. Quais seriam as 10 equações essenciais? Ed.: Zahar. Preços de R$ 21,82 até R$ 42,00. Avaliação: Muito Bom.

3. Uma Senhora Toma Chá: Mais um livro da Zahar e de título bem curioso. Não contarei aqui o por quê desse título pois senão perde a graça, só adianto que o autor conta a história logo no início e, por incrível que pareça, o título tem a ver com estatística. Diferente do outro livro da mesma editora que trata do mesmo assunto: "O Andar do Bêbado", que também resenhei aqui, a abordagem do estatístico e autor David Salsburg é mais cronológica. Não por isso se torna menos interessante, enquanto "o Andar do Bêbado" apresenta uma abordagem mais voltada para problemas conceituais e algumas curiosidades à favor do acaso. Salsburg constrói internamente a evolução da ciência estatística. O autor tem propriedade para falar pois "viveu" grande parte das revoluções dessa relativamente jovem ciência. Não faltarão também curiosidades para deleite dos estatísticos profissionais e semi-profissionais. Descubra quem é a pessoa por trás do t-Student, como eram feitas as contas no tempo anterior ao computador e como os pequenos computadores mudaram isso tudo. O subtítulo já diz: "como a estatística revolucionou a ciência no século XX". São muito interessantes as apresentações das mudanças de interpretação envolvidas nas correntes teóricas que vão desde Pearson, Fisher, e Kolmogorov, por exemplo,  à Wald, Tukey, Box e Efron, para novamente mencionar apenas alguns. O livro não traz apresentações formais e nenhuma equação, apenas as idéias por trás das evoluções. O propósito é apresentar os personagens e os problemas que moveram as perguntas científicas relacionadas à Estatística. O Panorama que Salsburg traça é bem abrangente e vem até os anos bem recentes do desenvolvimento da estatística. A precisão conceitual e os fatos curiosos são mais interessantes e mais agudos até meados dos anos 70, e um pouquinho dos anos 80. A partir daí o livro não tem como abordar a vertente caudalosa de pesquisas realizadas, seria necessário outro livro. Mas é muito relevante, aprendi bastante com as histórias por trás das fórmulas que aprendemos no dia a dia. Para os economistas, há especial menção à participação importante de Gertrude Cox na elaboração de dados de emprego e dados dos censos dos Estados Unidos e seu papel importante no NBER, assim como menções muito especiais à tese de doutorado do Lorde M. Keynes, a qual Salsburg considera que deveria ser cogitado em maior apreço sobre suas teorias em probabilidade que são quase esquecidas por boa parte dos economistas. Ed.: Zahar. Preços de R$ 35,91 à 49,90. Avaliação: Essencial.

4. Uma Breve História da Economia: O autor desse livro, Paul Strathern, é uma daqueles escritores profissionais voltados e especializados em escrever biografias históricas voltadas para o público geral. Já escreveu "Filósofos em 90 minutos" e uma série de outras "Breves Histórias" e livros rápidos. Mas acho que Strathern fez aqui um bom trabalho. O livro então peca por oferecer algumas abordagens rápidas e ao contrário dos outros que eu resenhei acima, ele parece se importar mais com as excentricidades de caráter dos economistas mencionados. Assim ele não poupa as esquisitices engraçadas do Adam Smith indo tomar banho de mar de roupa para se tratar dos problemas respiratórios, ou da pindaíba já muito conhecida e documentada pela qual viveu toda a vida o Karl Marx, assim como os sucessos comerciais de David Ricardo e alguns fracassos do Lord Keynes. São muito interessantes e curiosas as anedotas e as análises da psiquê de John Von Neumann, aliás, personagem que abre e fecha o livro. Mas pode se fazer uma concessão já que tudo isso deixa o livro divertido. A análise econômica é ora boa e ora mais fraca, em diversos pontos ela chega a ser consistente e interessante. No que tange aos aspectos conceituais positivos, o livro acerta na análise dos fisiocratas e da relação destes com as ciências médicas e de circulação de moeda comparativa ao que se pensava da circulação sanguínea. A análise sobre Hume é um tanto superficial, mas é boa para fins práticos do livro. O ponto alto em termos de análise trata-se da revolução propiciada por John Law, o homem que inventou o sistema financeiro moderno, enriqueceu e logo depois quebrou a França ajudando a acelerar a revolução de 1789. Este livro não traz nenhuma análise econômica mais pormenorizada, seu ponto é contar a história de personagens com curiosidades divertidas que de certa forma influenciam sim na teorização dos problemas em questão. Se seu propósito é uma leitura agradável sobre a vida e pensamento desses personagens, o livro é uma boa leitura e conceitualmente correto (ou não tem nenhuma falha muito grave que eu me lembre ou possa notar). Se o objetivo é procurar por aprofundamento conceitual e histórico, há alguns livros mais completos disponíveis. A vantagem para o livro acima é que nenhum será tão breve. Ed.: Zahar. Preços de R$ 22,15 à R$ 42,90. Avaliação: Bom.

5. Cartas a um Jovem Economista: Gustavo Franco parece ter descoberto um filão editorial. Acho que ele é um bom autor, a compilação feita com Economia em Pessoa mereceu a nota máxima aqui deste blog, mas logo depois desse já apareceram "A Economia em Machado de Assis" e "Shakespeare e a Economia", em parceria com Henry W. Farnam. A rapidez desses lançamentos me fez torcer o nariz quanto a possível qualidade editorial, não que eu duvide que eles possam ser interessantes, ainda não os li. Mas a editora Campus vai ter de me perdoar, eu tenho uma Restrição Orçamentária justa, não posso comprar essas aventuras editoriais. Até que é bem conhecido o personagem Shylock do Mercador de Veneza, muito mencionado sobre a questão do juros, mas não sei que muitas novidades esses livros podem trazer. Ponto favorável para um eventual interesse em "A Economia em Machado de Assis" é que Franco é um especialista no período conturbado das políticas macroeconômicas da república velha, período sobre o qual Machado discorre em ensaios e até mesmo em alguns dos seus livros. Bom, mas falemos do Cartas, o livro deveria se chamar cartas a um jovem macroeconomista pois Franco vem novamente contar histórias sobre o Real e o processo inflacionário brasileiro que ele já veio a contar em vários outros livros tais como "O Plano Real e outros Ensaios", enfim, o livro é muito curto, não tem profundidade e fala mais do mesmo. No final há uma tocante homenagem ao jovem e promissor economista Gabriel Buchmann que faleceu enquanto excursionava no Malawí na África do Sul. Gabriel viajou antes de se preparar para o doutorado nos EUA para o qual teve aceite de duas ou três importantes universidades e a viagem era uma importante jornada para o conhecimento dos povos que viviam na pobreza da África. A homenagem seria mais tocante se o livro fosse mais compromissado e relevante. Segue uma entrevista do G. Franco sobre o lançamento do livro e assuntos relacionados. Ed.: Campus. Preços de R$ 23,31 à R$ 29,90. Avaliação: Dispensável.

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Livros que estão sendo lidos e em breve contarão com resenhas:

6. The Mostly Harmless Econometrics: Livro do Joshua D. Angrist e Jorn-Steffen Pischke dois importantes autores da área. Li só os primeiros dois capítulos que são muito interessantes por trazerem uma linguagem muito boa da interpretação dos métodos experimentais de comparação em econometria. Aguardo com boas expectativas a finalização desse livro.







7. Os Pecados do Capital: Esse é um livro mais doutrinário, para o qual é preciso de um pouco mais de cuidado ao ler. Li algumas poucas partes que trazem os argumentos já conhecidos dos economistas austríacos como é o Robert P. Murphy, autor do livro. Mas ainda assim, deve ser uma leitura fácil que em breve terá também resenha.





8. O Espírito Animal: Comprei a versão em inglês desse livro e creio que é o que estou com a leitura mais avançada, porém tive de parar e não retomei. Desde o ano passado ele já ganhou versão em português da Campus. Estou achando bem interessante e fala sobre os avanços das descobertas comportamentais influenciando a economia. O famoso Animal Spirits.





Livros na Lista de Espera do cardápio de leitura (várias sugestões dos amigos na postagem anterior estão penduradas aqui): Alex no País dos Números de Alex Bellos, A Whole New Mind do D. Pink, Teaching Economics de William Becker, Michael Watts e Suzanne Becker (orgs), Salvando o Capitalismo dos Capitalistas de Rajan e Zingales, O banqueiro dos Pobres de M. Yunus, Alan Greenspan, Sob a Lupa do Economista de Carlos E. Gonçalves, A revolta de Atlas de Ayn Rand, Descubra Seu Economista Interior de Tyler Cowen, o Mito dos Mercados Racionais de Justin Fox, o Superfreakonomics e Almanaque das Curiosidades Matemáticas de Ian Stewart.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Cardápio de Leitura (Resenhas de Livros de Economia)

Caros leitores, selecionei alguns livros de economia para fazer curtas resenhas de leitura. Espero que seja útil para quem está procurando livros na área, seja para dar de presente no Natal, seja para dicas de leitura em eventuais férias ou tempo livre. A maioria desses livros eu li em aeroportos entre uma viagem e outra, alguns eu apreciei tanto que os li em prazo bem curto, menor do que uma semana, já outros, fizeram-se com uma leitura mais arrastada. Para quem é do ramo, tratam-se portanto de livros fáceis de serem digeridos por uma leitura corrida (ao contrário da leitura detida que algumas leituras epecializadas e de estudo requerem). São todos livros de economia ou estatística voltados para um público amplo.

A ordem dos livros está posta de forma um tanto aleatória mas com o viés de ter leituras mais recentes e que gostei mais em primeiro, no entanto há bons livros lá para o final da lista. Para cada livro há o título, nome do autor (ou autores), resenha, Editora, faixa de preços, número de páginas e Avaliação. A escala de avaliação é a seguinte:

Essencial > Muito Bom > Bom > Dispensável > Deplorável

É claro que essa classificação reflete meus gostos pessoais e dificilmente veremos Deplorável nessa lista, pois é uma lista de minha própria escolha já que não sou crítico profissional. Mas eu costumo a finalizar livros do qual não gosto então há uma chance deles aparecerem por aqui.

1. A Economia em Pessoa. Escrito pelo próprio Fernando Pessoa (não um de seus pseudônimos) e organizado por Gustavo H. B. Franco (ex presidente do Banco Central). Esse livro reúne 11 textos de Fernando Pessoa elaborados no tempo em que o poeta organizava uma revista de contabilidade e comércio. Na introdução há um belo texto de Franco contando a estrutura do livro e de como ele foi gestado e a idéia de associar a cada texto um conceito de economia moderna. Antes de cada texto, há uma pequena explicação do contexto, as explicações são curtas e não aborrecem, mas são um tanto desnecessárias, já que os textos que Pessoa ali nos deixou são atualíssimos. Pessoa foi um estudioso do comércio e da contabilidade. Trabalhava em firmas de representação comercial, e esse era seu ganha-pão, dado que veio a ser mais reconhecido pelos poemas no post mortem. E podemos dizer que ele levava braços ao comércio não sem uma dedicada paixão, já que abriu várias empreitadas comerciais e era dedicado a analisar aspectos das leis que facilitariam ou prejudicariam a atividade. A leitura é um deleite impar, os textos de Pessoa são de uma organização e de uma clareza de pensamento maravilhosa. Pessoa possui uma postura marcadamente liberal, o que é de fato interessante, aliava isso a uma posição moral que entendia necessária, pois julgava os estudos sociais ainda não serem ciência, e não sendo ciência, era possível desconstruir os intervencionistas que já existiam. Sua defesa do liberalismo ia um tanto pela fato da natureza do comércio, e do bem-estar por ele proporcionado, decorrer de uma forma naturalmente livre e não conduzida. Enfim, esse é um livro altamente recomendável. Pessoas como Pessoa fazem no tempo de hoje, e por cá, no Brasil, muita falta. Ed. Zahar. Preços de R$ 31,86 à 44,00. Pags: 173 .Avaliação: Essencial.

2. O Economista Clandestino. Tim Hardford. A proposta do livro é apresentar os problemas cotidianos que surgem na área de economia, e as soluções apresentadas pelos economistas a esses mesmos problemas. Muitos desses problemas as pessoas nem desconfiam que possa ter relação com economia, mas são na verdade temas muito estudados. Minha edição da Record traz uma capa com os dizeres: "Por que os ricos são ricos, os pobres são pobres e você nunca consegue comprar um carro usado decente". Esses dizeres dão um toque ireverente e Tim Hardford irá tratar de temas como preços no supermercado, planos de saúde, trânsito nas cidades, ecologia e desenvolvimento. Todos os temas já são microeconomia mainstream, porém, o alcance dessa economia ao grande público é um pouco difícil. Hardford logrou difundir esses temas conhecimentos e soluções dos economistas a um público mais amplo. Depois desse livro me tornei fã do seu autor, coloquei o blog do autor na listas de links sugeridos. Para um economista mais afinado com os temas de microeconomia (teoria da informação imperfeita, risco-moral, tragédia dos comuns, seleção adversa, teoria dos jogos, e economia comportamental) o livro não apresenta temas novos. O que muda é a forma de exposição que é muito didática, com bons exemplos para se utilizar e repassar o conhecimento em sala de aula. Eu adoto esse livro como leitura complementar em meus cursos (há também uma boa resenha um pouco maior que esta em realtrading). Ed. Record (Obs. Esse livro tem edição similar com foto de um ovo na capa: A Lógica da Vida, também da Record). Preços de R$ 35,70 a 44,90. Pags: 333. Avaliação: Muito Bom.

3. O Andar do Bêbado. Leonard Mlodinow. O andar do bêbado. Familiarizados com economia e estatística saberão o porquê desse título curioso. O Andar do Bêbado vem de random walking, passeio aleatório e quer dizer como uma série de dados se comportam aleatóriamente em torno de uma tendência. O bêbado tem um andar cambaleante (aleatório) mas mesmo assim consegue chegar em casa (tendência central), veja mais ou menos como funciona aqui. Eu ganhei esse livro de presente de uma forma um tanto por acaso, em um amigo oculto de livros onde as pessoas podiam "roubar" os livros umas das outras, em novembro de 2009. Como fiquei por último no sorteio, pude escolher, e o título que mais me chamou atenção foi esse. Pois bem, li o livro em uma semana e comprei uns quatro exemplares para presentear amigos. Mlodinow trata da história da estatístca com boas curiosidades sobre a formação de pensamento. Para os economistas, é interessante os tracks de confirmação apresentados. Exemplos de economia comportamental. O tema é de que a aleatoriedade tem um aspecto de imprevisibilidade e determinação mais importante do que lhe temos conferido. Esse é o mesmo tema de "A Lógica do Cisne Negro" que tratarei mas abaixo. Mas achei "O Andar do Bêbado" mais objetivo e fundamentado. Ed. Zahar. Preços de R$ 19,90 a 45,50. Pags: 261. Avaliação: Muito Bom.

4. Economia Sem Truques. Carlos Eduardo Gonçalves e Bernardo Guimarães. Um dos melhores livros de autores nacionais nessa linha de livros de economia para difussão ao público leigo. Uma boa resenha foi feita pelo prof. Rodrigo Menon Moita, que conheci em Brasília em curso preparatório da ANPEC (fiz a matéria de matemática com Cecília Menon, sua esposa). Utilizei um capítulo como referência de um artigo sobre a meia-entrada que estou escrevendo. O livro é cheio de interessantes casos exemplos, assim como o livro do Tim Hardford. Traz aplicações dos temas de microeconomia ao comportamento cotidiano, explorando bem os alcances das teoria dos incentivos, que levam as pessoas tomarem decisões baseadas em alguma racionalidade, e quais as consequências disso em uma série de medidas que temos. O livro desvela muita coisa que o conhecimento comum desconhece ou deixa de considerar. Esse livro em questão tem uma faixa de preços um pouco acima da média do mercado. Será que oferta e demanda explicam? Ed. Campus. Preços de R$ 41,80 a 54,90. Pags: 224. Avaliação: Muito Bom.

5. Econopower. Mark Skousen. Skousen é um economista declaradamente austríaco, isso o põe na linha de ser mais libertário e liberal do que os economistas mainstream. Mas uma das boas vantagens de Skousen é que ele não desconsidera as vantagens dos conhecimentos adquiridos na principal corrente da economia. Então o livro se propõe a tratar de temas diversos, e Skousen se propõe a lançar um olhar austríaco sobre a pauta neoclássica. Creio que ele foi bem sucedido, Econopower é um livro mais cadenciado do que os demais livros de economia para leigos, trata de mais assuntos na forma de capítulos curtos. Acho que os economistas mais tradicionais vão apreciar mais o Econopower, pois apresenta os conceitos novos de uma maneira mais a antiga, isso é uma vantagem, pois o livro ficou organizado e autor conseguiu pôr 37 capítulos em 243 páginas, os capítulos são curtos e agradáveis de ler. Por não ser da nova geração, Skousen não se apropria muito bem de alguns conceitos, faz uma defesa do padrão-ouro e pequenos pontos ocasionais que não comprometem o resultado. O preço pode estar um pouco salgado, mas ressalto o poder de concisão de Skousen. Ed. Campus. Preços de R$ 44,03 a 73,00. Pags: 243. Avaliação: Muito Bom. Confiram a capa da edição em inglês, mais divertida, não?!

6. Freakonomics. Sthepen Dubner e Steven Levitt. Surpresa! Eu li Freakonomics já há algum tempo e farei a resenha de memória não tão recente. Esse foi o livro que revelou aos editores que economia pode vender bastante. O livro é muito bom traz casos inesperados e tem um raciocínio lógico bastante fino. O livro é leitura importante, pois apresenta alguns achados úteis da área microeconômica e comportamental, tal como aquele de que a criminalidade pode estar realcionado à queda da fecundidade e a políticas que permitiam o aborto, que nomes e a indicação de raça implicita neles, podem incutir uma discriminação salarial, e que a mais honesta das pessoas reage a incentivos e que sistemas são falíveis, como o caso de professores recompensados pelas notas dos alunos tentados a adulterar as notas. Recomendo esse livro mais aos não-economistas, pois os achados serão mais reveladores para estes. mas alerto que tomem cuidado, o texto conduzido principalmente por Dubner, é uma leitura por demais enaltecedora dos trabalhos científicos de Levitt. O que Dubner apresenta como achados extraordinários e feitos de uma inteligência sem igual de Steven Levitt, nada mais são do que uma forma corriqueira de pensar e de analisar os problemas de economia. Na verdade, esse livro tem também o efeito perverso de fazer parecer que achado bom é aquele imprevisto, e não é muito assim, existem uma série de achados relatados em freakonomics que requerem maior rigor causal. Mas de uma forma geral os resultados que o livro mostra são importantes de serem conhecidos. Ed. Campus. Preços de R$ 41,76 a 66,90. Pags: 360. Avaliação: Bom (uma dica boa é o blog do Freakonomics).

7. Economia do Ócio. Bertrand Russel e Paul Lafargue. Organização de Domenico de Masi. Como um livro de tão poucas páginas pode ser tão essencial como esse? Nesse pequeno livro de 183 páginas de Masi organizou os dois clássicos autores que trataram de como a sociedade pode migrar de onde muitos trabalham para sustentar o ócio de poucos, para uma sociedade com mais opulência onde o leitmotiv seja o lazer e bem estar cultural proporcionado por um mundo onde o homem não seja escravo do próprio trabalho. Bertrand Russel é o conhecido matemático e filósofo da virada do século XIX para o séc XX, socialista moderado, pregava uma mudança para o socialismo por meio do convencimento, pacifista e favorável ao livre comércio. Grande parte de suas idéias continuam atuais, os excertos de Russel nesse livro são da coletânia Elogio ao Ócio, nessa coletânea Russel apresenta o argumento que devemos desapegar da ética do trabalho que faz com que se trabalhe e corra sempre atrás do tempo, o livro é de 1935 e já há pontos debatendo os pontos falhos do keynesianismo e sua enfase no trabalho (mesmo que inútil) apresenta também pontos contra o marxismo em vigor e acensão naquele momento. De particular interesse aos economistas é o capítulo "Finanças do Ócio" em que discorre sobre a inutilidade do padrão-ouro. E de como os resultados de crise de 1929 poderiam em grande parte serem evitados se houvesse mais racionalidade no tratado de Versalhes. O socialismo e algumas soluções de B. Russel são ainda utópicas e controversas, naquele tempo acreditava-se ainda, ser possível um perfeito planejamento central, talvez porque o mundo fosse mais simples, a guerra havia sugerido que algum planejamento era possível para nortear a economia, porém parte-se de uma premissa que hoje não se confirma: "Sem dúvida é possível o governo cometer erros de cálculo, mas é menos provável que o faça do que o indivíduo privado, pois tem à sua disposição um conhecimento muito mais completo da realidade". Mas aí se incorre no erro de que era possível se processar racionalmente informações, mas isto se revelou impossível por meio das experiências soviéticas e de outros países com regime econômico de controle. No mais, os erros são de diferentes proporções, no lado privado quando um indivíduo ou firma erra, outro estará em outro ponto, acertando, no caso do estado o erro de estado pune a todos indistintamente. Nos pontos controversos sobram uns aforismos que podem ser considerados dentro do senso de humor do autor: como na questão de que as mulheres educadas perdiam muito tempo com cultura inútil e escolhendo caros e ridículos chapéus (aquele trabalho poderia ser usada para coisa mais proveitosa) ou poderíamos ainda hoje concordar com a afirmação de que "Hoje em dia, os livros sobram em quantidade na mesma proporção em que carecem de qualidade", mas essas são questões de gosto e Russel está sendo muito pouco utilitarista nesse ponto. Paul Lafargue era um pensador francês e socialista, mas também defendia uma revolução pela libertação do trabalho, ressaltando aspectos caros aos socialistas que são a abundância material e o combate à loucura da superprodução. Seu ponto principal é de que a burguesia havia incutido um ideal de trabalho aos pobres que colocava os trabalhadores em condições sub-humanas por motivos desnecessários, já que toda aquela mercadoria não seria vendida. Aponta ainda que o natural do homem é o não trabalho e aponta essa contradição na recém assinada carta dos direitos humanos à frança, que pregava o direito ao trabalho. Mas o trabalho para os mais pobres naquele tempo era punição pior do que a escravidão. Ed. Sextante. Preços de R$ 19,90 a 19,90. Pags: 183. Avaliação: Essencial.

8. A Lógica do Cisne Negro. Nassim Nicholas Taleb. Taleb é um cético, arrogante, iconoclasta e pouco educado autor. Ele ataca Deus e o mundo salvando alguns poucos gatos pingados de sua predileção. Como Taleb não tem papas na língua, também não terei freios ao criticar o livro dele. O ponto do Taleb é algo parecido com o de Mlodinow, Taleb ressalta o papel do imponderável, de que não dá para prever acontecimentos baseados apenas em informações passadas. É muito interessante o didatismo de Taleb na exposição de coisas que pertencem ao Mediocristão e de coisas do Extremistão. Na linguagem do autor Mediocristão é o país onde as coisas são regidas por uma distribuição normal e se tornam relativamente fáceis as previsões. Taleb estabelece que fenômenos físicos conhecidos como altura e peso das pessoas obdecem a essa regra, um grande desvio de peso de uma pessoa não impactará demais na média. O contrário ocorre no Extremistão, onde a curva normal não tem vez, Taleb tem ojeriza da curva em formato de sino, mas isso vem de que ele não a conhece muito bem. Na verdade, Taleb não parece conhecer muito bem de estatística e provoca dizendo que a Normal é a GFI - Grande Fraude Intelectual. Dedica a parte três do livro a um malogrado ataque à curva normal. Mas os argumentos de Taleb são falhos. O autor está certo em ressaltar que ele não precisa "provar" uma outra distribuição para desqualificar a normal, inclusive Karl Popper faz parte de um dos eleitos que Taleb coloca em um pedestal. Está certo em mostrar casos em que a normal não funciona e mostrar que quem confia piamente costuma errar previsões. No entanto, refutar um argumento não mostra que o seu argumento alternativo está correto (não há confirmação de hipótese) e Taleb parece convenientemente esquecer disso. Pra finalizar a crítica eu diria que Taleb tem contato com gente muito ruim de serviço e não sabe nada de estatísticos. Na verdade, estatística não é SÓ pra fazer previsão, eu diria que esse é um campo menor de aplicação da estatística. Muitos dos contra-exemplos de Taleb não funcionam porque após uma transformação, logarítmica ou outra transformação qualquer, as distribuições a que ele se refere passam a ser normais. E os estatísticos possuem uma ampla gama de conhecimento de outros fenômenos não regidos por uma normal, e muitos ressaltam que o papel da matéria é pela explicação de fenômenos e não a sua previsão. Eu sou a favor do ponto de que previsões são logicamente imponderáveis e tenho minha própra coleção de exemplos que mostram situações em que economistas erraram fragorosamente ao tentar fazer previsões, mas acho que Mr. Taleb está muito por fora, ele tenta ser um iconoclasta, mas para isso é necessário muito mais substância sobre o que se está dizendo, coisa que Taleb não faz. Ele tem muita erudição e é um cético contra o platonicismo que às vezes leva a inutilidade, o que é coisa muito boa, mas é metido e arrogante e desrespeita o leitor. Ao longo do texto ele faz um chiste com o nome de uma autora chamada Yevgenia, que não existe e ao final ele não diz de quem se trata a tal mulher ou se é ficção de sua própria autoria. O livro poderia ter uma avaliação boa se Taleb encurtasse o número de páginas e fosse mais objetivo. Para a minha avaliação, ele me fez um calhamaço de 457 páginas onde 350 foram puro desperdício de tempo. Ed. Best Seller. Preços de R$ 26,91 a 39,90. Pags: 457. Avaliação: Dispensável.

9. De Cuba com Carinho. Yoani Sánchez. Acho que esse livro será muito importante para entender a fase atual de transição do regime Cubano. Cuba caminha para uma maior liberação pela simples falência do regime socialista. E a blogueira Yoani Sanchez (do blog Geração Y) que ficou famosa por amar Cuba, mas lutar para ter acesso à parca e precária internet da ilha e por apontar os inúmeros defeitos e contradições presentes cotidianamente no seu país. O próprio nome do blog da autora é um caso curioso de como a manifestação controlada de alguns canais de comunicação, no fim dos anos 70 e início dos anos 80, levou toda uma geração de pessoas a batizarem seus filhos com a letra Y na inicial do nome, uma manifestação silenciosa pela diferença. Yoani Sánchez conta situações criadas pelo controlismo social e econômico e o absurdo que isso gera, não é necessariamente contra o socialismo, mas a favor da liberdade, o que a torna um arauto, divulgadora das ânsias de libertação das pessoas da ilha ,que querem poder desfrutar o mundo com liberdade e igualdade. Os textos são retirados do blog da autora, mas achei importante a compra do livro, espero que boa parte do dinheiro vá mesmo para Yoani, acho a leitura importante para os que amam a liberdade. E mesmo que não intencionalmente, Yoani defende um sistema que só a liberdade capitalista pode proporcionar. Ed. Contexto. Preços de R$ 25,41 a 33,00. Pags. 204. Avaliação: Muito Bom.

10. O valor do amanhã. Eduardo Giannetti. O valor do amanha ficou conhecido por uma série que apareceu no fantástico. O livro trata do papel do tempo na decisão das pessoas. Como as pessoas racionalizam o tempo, como tomam decisões racionais considerando os seus efeitos. Giannetti fala das taxas de juros biológicas, sobre a persistente subestimação do futuro. É quase um tratado sobre os juros e sobre as decisões no tempo. Giannetti escreve de maneira admirável e o livro perpassa temas tais como poupança e investimentos, decisões de consumo, tempo e dinheiro e o envelhecimento e atitudes intertemporais. Conclui o livro falando sobre quais são as implicações sobre o desenvolvimento. Ed. Companhia das Letras. Preços de R$ 37,80 a 52,00. Pags: 337. Avaliação: Muito Bom.

11. Gobalização e seus malefícios. Joseph Stiglitz. Eu já gostei mais desse livro, talvez seja por tê-lo lido há muito tempo atrás, hoje acho algumas de suas conclusões parecem incorretas , o diagnóstico é simplista e a atribuição de causalidade muito rápida. Existem vários defeitos nele, a começar pelo título, ao contrário do título o livro não irá falar de Globalização, mas sim da orquestração das finanças globais dada pelo FMI e dos empréstimos do Banco Mundial. A postura de Stiglitz é bastante crítica à atuação do Fundo Monetário e aos empréstimos do Banco Mundial. Em verdade, esse livro marca um turning point na carreira de Stiglitz em que ele passou a ser menos um economista acadêmico e mais um economista midiático. As críticas do autor se pautam mais no processo de condução da transição do regime socialista do leste europeu, mas ele confere um peso demasiado do FMI tanto no combate quanto no papel de retirada dos países da pobreza e na determinação de crises e bom desenvolvimento econômico. O receituário dele é um Keynesianismo renovado, em alguns casos creio que correto, no caso dos países do leste europeu Stiglitz trabalhou o ponto de melhor forma em "White Socialism". No caso dos países asiáticos, acho que seus ataques são um tanto inapropriados. Ed. Futura. Preços de R$ 54,00 a 54,00. Pags. 325. Avaliação: Dispensável. (Há uma resenha mais favorável do Henrique Chagas, aqui).

12. Sexo, Drogas e Economia. Diane Coyle. O melhor desse livro é o nome. Sexo drogas e economia pretende ser mais um livro descolado de economistas, mas não consegue surtir muito efeito. A tradução para o português está mal feita, trata regressões econométricas como se fossem regressões ao passado da psicanálise. Além deste há mais alguns outros absurdos como "taxa de interesse" que não foi traduzida para "juros" e coisas do tipo. Isso não poderia comprometer a coitada da autora que não tem muito haver com a tradução que fizeram do seu livro. Mas afora a tradução o livro é fraquinho. Traz casos interessantes de aplicação da economia aos temas do sexo e das drogas e estão bem conduzidos esses capítulos. Assim como um capítulo em defesa da economia. Diane Coyle é uma jornalista de economia reconhecida, mas em alguns pontos ela não domina o assunto com muita propriedade e o capítulo dos efeitos da radiação solar na economia ficam mal postos no livro e o comprometem. Além de passagens por demais simplificadoras que demonstram não uma clareza de exposição mas sim uma não-compreensão completa do tema. Ainda assim o livro é bom de ler. Ed. Futura. Preços de R$ 44,00 a 44,00. Pags. 325. Avaliação: Dispensável.

As pesquisas de preços foram feitas utilizando o buscador buscapé.

Prováveis próximos participantes do Cardápio de leitura:

1. Most Harmless Econometrics. Angrist e Pischke.

2. Animal Spirits. Akerlof e Shiller.

3. Salvando o Capitalismo dos Capitalistas. Rajan e Zingales.

4. A revolta de Atlas. Ayn Rand.

4. O banqueiro dos Pobres. Yunus.

5. Alan Greenspan. Biografia de Alan Greenspan.

6. Sob a Lupa do Economista. Carlos E. Gonçalves.

sábado, 2 de outubro de 2010

Atlas Shrugged de Ayn Rand: reedição da ed Sextante

A editora sextante relançou a obra mais famosas de Ayn Rand:

http://www.esextante.com.br/

Teve o título traduzido como "A Revolta de Atlas" está 69,90 e conta com três volumes.

Comecei a ler o livro em inglês e não prossegui na leitura pois o livro era de biblioteca pública com prazos curtos e renovação presencial, ou seja, não estava com tempo para ler e a renovação era um pé no saco.

Tô achando o preço um pouco salgado, o livro em inglês era essa mesma capa porém um só volume com folhas finas de livro de bolso. Em lojas dos EUA custa em média 10 a 15 dólares. Em tempos de real valorizado isso não passa de 25 Reais.

A diferença de R$ 69,90 - R$ 25,00 = R$ 44,90 é o valor da tradução, a escassez de leitura no Brasil (pouca oferta, consumidores que compram são aqueles em que o excedente é alto), estratégia de vendas (vender pouco mas para quem paga caro), Impostos Indiretos* e custo Brasil.

Tá bom para vocês ou querem mais?!

De todo modo, vale muito a pena conferir.

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* Esse post foi alterado no dia 23/10/2010. Onde antes se lia apenas "impostos" está "impostos indiretos". A troca se dá a título de precisão, pois aos livros cabe a distinção da não incidência de alguns dos impostos diretos do Brasil: ICMS, IPI, Imposto de Importação (II) e Imposto de Expotação (IE). No entendimento atual do STF, vale a incidência do PIS, COFINS, IRPJ e o Imposto sobre o Lucro Líquido (ISLL), pois o fato gerador de tais impostos é o lucro das empresas e não a comercialização do bem.

Encontrei aqui em um sítio tributosdf uma boa explicação sobre o assunto.

Então, há alguns impostos diretos incidentes sobre os livros, porém bem menos do que nas demais mercadorias em geral do país. Esse ponto gerou polêmica e uma longa thread em uma lista de e-mails para discussão de economia. Um colega participante chamou atenção para a insenção dos livros. Em sua concepção impostos indiretos fazem parte do custo Brasil. Caso eu tivesse me referindo aos impostos indiretos no meu conceito de custo Brasil, haveria dupla contagem em mencionar o custo Brasil e impostos separadamente.

O conceito de custo Brasil é bem genérico, não é ponto estabelecido, pois é usado basicamente para explicar o preço elevado não competitivo que temos em alguns setores. Eu costumo a separá-lo dos impostos. Custo Brasil em minha concepção são:

- custos burocráticos
- falta de infra-estrutura ou indadequada
- corrupção,
- superfaturamento
- desperdício e ineficiência

Impostos diretos e indiretos não são custo Brasil, pois eles não são uma particularidade brasileira. Talvez seja uma particularidade o código tributário complexo, mas aí seria questão de acrescentar ao custo Brasil a legislação tributária que demanda tempo para destrinchá-la e aplicá-la ou até se esquivar dela e não os impostos propriamente.

Os impostos são iguais impostos diretos + impostos indiretos. Considero como impostos os tributos e contribuições (que não são tão voluntárias no Brasil). E lembrando sempre que a incidência tributária econômica depende das elasticidades e não do que está propriamente passado na lei. Dessa forma, dependendo da elasticidade de oferta e demanda os impostos indiretos que incidem sobre os insumos de produção podem acrescentar uma parte considerável ao preço final dos livros.

O sistema brasileiro de impostos é tão emaranhado e com tantas incidências em cascata, que é praticamente impossível considerar que há alguma mercadoria final completamente isenta em nosso país. Não é a toa que nossa carga tributária (total da arrecadação/PIB) e o estímulo a informalidade são elevados. Dessa forma, os impostos além de elevarem o preço da forma que podemos estabelecer pelo simples computo da alíquota*base, elevam de maneira dificíl de estabelecer os preços por conta de acréscimos de impostos indiretos aos custos, teríamos de contar os impostos em toda cadeia. Na questão do livro, ajudaria saber:

Quanto foi repassado de impostos no preço das mercadorias utilizadas nos insumos, no capital e trabalho empregados na confecção do livro? E qual o poder das editoras em repassar esses impostos que pagou indiretamente nos insumos, custos variáveis e fixos ao consumidor final?

Espero que o ponto fique mais claro. Obrigado.