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segunda-feira, 6 de junho de 2011

And the REAL soars


De acordo com a teoria da Paridade do Poder de Compra (PPC), o preço de mercadorias transacionáveis com o restante do mundo, a uma mesma cotação, deveria custar o mesmo preço. Os teóricos defendem que isso ocorreria por conta dos países onde o preço é mais caro terem incentivos a importar dos países de onde o preço é mais barato, e vice versa. Curiosamente, tendo por base preços de commodities, isso parece bem ser verdade.

Entretanto, para os outros bens, muitas vezes têm-se a impressão de que o câmbio está valorizado demais (sobrevalorizado) ou desvalorizado demais (subvalorizado). A sobrevalorização prejudica exportadores e facilita importar de outros países. A subvalorização auxilia as exportações e vendas do comércio externo, mas prejudica os preços importados.

Como o julgamento sobre o câmbio estar sobrevalorizado ou subvalorizado depende de um referencial, a revista The Economist adotou o hambúrguer Big-Mac do Mc Donald’s ® como uma mercadoria de referência. Esse índice tira por base a grande presença mundial da cadeia de restaurantes fast-food e a forte padronização de suas franquias que, em tese, devem vender o mesmo hambúrguer no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.
Nessa tabela acima não aparece o Brasil, mas olhem como o Real está sobrevalorizado segundo o mais novo Big-Mac index da The Economist:

quarta-feira, 9 de março de 2011

Economia e Meio Ambiente

A questão ambiental deve estar também dentro do compromisso ético dos economistas. O vídeo abaixo "A História das Coisas" aproveita uma versão simplificada de um sistema exploração, produção e descarte.



O vídeo simplifica bem algumas questões, mas é bastante relevante e deve ser considerado por todos nós preocupados com o uso consciente dos recursos. De primeira mão, a apresentadora e pesquisadora Annie Leonard usa alguns conceitos importantes, um deles o de externalidades. No momento em que menciona um rádio que custa US$ 4,99 se pergunta: "Como U$ 4,99 podem refletir o custo da produção e transporte desse radio até ele chegar em minhas mãos?"

O preço do rádio é assustadoramente barato. Existe uma parte do argumento da autora que está impreciso e a outra parte é correta. A parte imprecisa é que a apresentadora chega a conclusão que o preço de 4,99 não paga nem o custo do rádio estar exposto na prateleira. Bom, tecnicamente, um único produto não precisa fazer isso, porque supermercados trabalham com elasticidades cruzadas. Saindo do economês, o radinho de pilha que você compra barato em promoção é um chamariz para comprar outros produtos que compensam o fato daquele radinho estar lá, a pilha pode ser um deles.

A parte correta: a produção do radinho de pilha de fato deixa de pagar muitos custos de produção não contabilizados, as externalidades dos custos. Externalidades são custos não apropriados (e não pagos) por ninguém, mas que cobram o preço ambiental em termos de qualidade de vida das pessoas envolvidas na produção, assim como aquelas não diretamente envolvidas. Suponhamos que o rádio foi transportado por um caminhão que joga muita fumaça fora. Essa poluição não foi contabilizada por ninguém. Na verdade, há uma série de outras externalidades até mais importantes que essa. A apresentadora parece incluir "o trabalho das crianças do Congo" como uma dessas externalidades, mas não creio que essa possa ser considerada stricto senso como uma. Há, no entanto, a questão moral para melhorar esse quadro em que crianças e adolescentes trabalham. A competição por oferta de trabalho em melhores condições deve ser orientada, ou seja, a exploração do trabalho se combate com direitos trabalhistas e mais desenvolvimento econômico e material. É possível requisitar também uma abordagem ética do lado empresarial.

Outro ponto econômico importante do vídeo: a seta dourada do consumo. Alguns economistas realmente parecem viver em função daquela seta, mas nem todos pensam assim. Eu diria que o Keynesianismo de uns 20 anos atrás, que para manter a economia girando, estimulava o consumo a qualquer preço, cobra nos dias de hoje o seu preço, uma sociedade atulhada de bens de consumo descartáveis. O consumo deve ser sim eficiente, e o consumo pelo consumo, para estimular os ânimos das pessoas, tal como pregava a economia keynesiana mais ortodoxa, só adia os problemas devido ao uso ineficiente de recursos.

O vídeo usa um exemplo de uma decisão equivocada do governo Bush ao incentivar as compras pós 11 de Setembro. O governo Obama, ao salvar a GM, continua tomando as mesmas medidas Keynesianas e equivocadas. Por que salvar a produção (e o consumo) de carros não eficientes e não friendly ao meio ambiente? Aliás, é isso o que fazem os governos pelo mundo afora, é isso o que se fez no Brasil com a redução do IPI. Nesse ponto estou de pleno acordo com o vídeo de que os governos passaram a engraxar os sapatos das grandes coorporações.

A questão dos resíduos: a estatística de que apenas 1% do que é produzido não é consumido em menos de seis meses me pareceu surreal. Como economista sei das gigantescas dificuldades em se fazer essa conta. Mas não sei como essa conta em particular foi feita. Não me impressiona que a maior parte do consumo se exaure em menos de seis meses. Em primeiro lugar, uma economia de serviços, por definição, é uma economia onde não se consegue contabilizar isso. O serviço é um consumo imediato. Outros produtos, agrícolas e demais perecíveis, que compõem uma parcela expressiva do produto de muitos países também se exaure rapidamente. Enfim, aquele porcentual referido só seria muito maior caso tivessemos uma economia com parcela expressiva de bens duráveis. No entanto, sei que ainda assim a conta seria muito difícil, pois uma boa parcela de bens duráveis é na verdade contabilizada como consumo. Ou seja, se "você" consumidor compra um computador novinho, não importa se você cuida bem dele e consegue ele fazer durar 6 anos, ou se você é desleixado usuário e o destrói em menos de 6 meses, para as contas nacionais aquele computador "some" (é consumido) a partir do momento em que sai da loja.

Ao cabo, apesar de não concordar com tudo, achei o vídeo extremamente relevante. Não tenho o que dizer sobre a questão das toxinas, isso ultrapassa o meu conhecimento, mas sei também que ambientalistas costumam a ser alarmistas nesses pontos. Para concluir, pontuo que a questão ética-ambiental é extremamente importante e tenho a percepção de que os economistas podem ajudar muito na economicidade dos processos e nas contabilidades corretas das externalidades envolvidas na produção e no desgaste do meio ambiente.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Mais uma vez, o problema do Trânsito


Sou um pouco aficcionado por tratar economicamente o tema dos transportes urbanos. No meio do ano passado comentei uma reportagem da record sobre a falta de vagas nos estacionamentos de São Paulo e demais capitais do país.

Pois bem, o assunto surgiu novamente, porém, agora no Jornal Nacional. É oferta e demanda como eu tinha dito, a solução é substituir. O mais interessante aí dessa reportagem é a fala do engenheiro de transportes, Fernando Mac Dowell sobre investir maciçamente no transporte público. Creio que no Brasil, além disso, é necessário também investir na divulgação desse tipo de transporte em campanhas para o uso, pois somos culturalmente uma sociedade muito orientada pelo uso do transporte individual.

A pergunta é: "estamos investindo corretamente no transporte público?"

Segue o link da reportagem:


Outra matéria muito boa é a sobre a qualificação no mercado de trabalho nos transportes com participação de vários economistas e profissionais da área em Belo Horizonte:


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Ciência Econômica em seus mínimos necessários pressupostos

A economia como parte das ciências sociais sofre muitos e variados ataques. Muitos deles construtivos e vindos de pessoas céticas que se preocupam realmente com o "valor" (o peso científico) dos "achados" da economia. Será que o livre mercado beneficia mesmo a todos?! Empresas privadas ou estatais?! Câmbio livre-flutuante ou controlado?! O salário mínimo melhora a vida das pessoas?!

Para todas essas perguntas há zilhões de respostas, para um economista mais pragmático, nem tantas, mas não vou me ocupar aqui em respondê-las, estudem por si mesmos quem tiver interesse. Minha preocupação aqui é a pergunta que não quer calar: "Seria a economia realmente uma ciência ou uma crença de valores?" Em particular, alguns ataques à economia alegam que há um excesso de pressupostos, suposições irrealistas ou rígidas demais, racionalidade imperfeita e alguns outros pontos que cientistas de outras áreas e metodólogos da própria economia levantam.

Alguns destes estudos estão relacionados ao final do post. Porém não vou enredá-los aqui por economia de tempo, de espaço e paciência dos que já estão carecas de saber desses assuntos para os quais acredito que serão os principais leitores aqui do Blog.

Mesmo não sendo especialista na área, acho relevante e útil pensar sobre o assunto, pois é preciso ter compromisso com o que se está dizendo e propondo como uma teoria econômica positiva. Tendo isso em conta, compreendo que hoje se entende ciência como uma manifestação social, com suas regras particulares. Depois de Thomas Kuhn e sua revolução paradigmática de como interpretar ciência, não é possível passar ao largo de seus constructos sociais relevantes e que vigoram dentro do saber científico. Nenhuma ciência é isenta, caso recente e exemplar dessa fragilidade científica são os tremendos furos do relatório do IPCC, por exemplo.

Outro ponto que hoje é consenso: toda ciência se apóia em pressupostos não falseáveis. Isso é uma pancada no rim de K. Popper. "E de onde surgem tais pressupostos?" Popper nem sequer imaginou em nos explicar. Porém, o cara não estava tão por fora assim, o falsificacionismo parece ser uma boa ferramenta. Tomados os pressupostos-chave como dados (ou axiomas, como desejarem), a ciência deve se manter coerente e rigorosamente lógica e capaz de gerar proposições falseáveis, ou seja, que testem a sua funcionalidade. Foi nessa idéia em que se apoiou Lakatos, discípulo direto de Popper.

Quais seriam os pressupostos mínimos da economia mainstream?!

Por que mínimos?!

- Sim, os pressupostos devem pertencer a um mínimo conjunto necessário para a construção do arcabouço teórico e lógico com proposições falseáveis (navalha de Occam).

Em busca de tais pressupostos mínimos, não é possível descartar tantas revisões pelo qual a economia mainstream passou nos últimos anos 40 e 50 anos: racionalidade imperfeita, modelos de informação assimétrica, modelos de capital humano, restrição de crédito, preços hedônicos. Estou ciente dos aprimoramentos, inclusive, acompanho de perto a evolução de alguns deles, mas não tão de perto os avanços da economia comportamental.

Qual é o hardcore mínimo (o núcleo duro) sobre o qual um economista mainstream, que se denomina como tal, pode fiar? Mais ainda, lanço uma provocação: quais são os pressupostos que separam os economistas dos não-economistas, e se você não aceita alguns desses pressupostos operacionais, você deixa de ser um economista?!

Então, à semelhança de Euclides, eu elaborei, de acordo com o conhecimento vigente, cinco pressupostos que acredito serem mínimos para desenvolver toda a ciência econômica (ambicioso, não?!). Sim, mas não tanto pois, são passíveis de revisões críticas, sugestões e xingamentos. Para cada um dos pressupostos há uma pequena explicação interpretativa não limitadora do que é, e de como o pressuposto se aplica. Nos curtos parágrafos debaixo de cada pressuposto, procuro explicar um pouco a nomenclatura, mais para esclarecimento do leitor leigo do que qualquer outra coisa, pois os pressupostos geram teoremas, mas para eles próprios não cabem provas.

Reforço que apesar da leitura metodológica, tais pressupostos são propostos por mim mesmo, e chamo aqui responsabilidades sobre todos os ônus e bônus:

pressuposto 1:

1. "O comportamento humano é modelável".

- Quebrar esse primeiro postulado é dizer que as pessoas não se sujeitariam a regra nenhuma. Não haveria sinais de trânsito, você não teria preferências sobre nada, um dia usaria roupas, outro dia não, seus hábitos de consumo, trabalho, lazer não teriam nenhum padrão, ou seja, você não conseguiria adquirir nem ao menos um processo de linguagem, um ser humano completamente aleatório em todos os seus comportamentos. Não é assim que parece ocorrer na realidade, o modelo para comportamentos não é completo pois as variantes são infinitas, mas podemos dizer que as pessoas seguem padrões até quando querem subverter padrões. Não é um pressuposto exclusivo da economia, acontece em outras áreas das ciências sociais e humanas, a ciência humana que mais extrapola seus limites é a antropologia (Lévi-Strauss).

pressuposto 2:

2. "As pessoas fazem o melhor para si".

- Esse é outro postulado bem operacional. É possível encontrar pessoas que não fazem o melhor pra si, isso se torna mais evidente se inserirmos modelos que admitem erros (quem nunca errou um caminho mesmo com um mapa na mão, ou mais modernamente, com um GPS?). Problemas cognitivos atuam e existem 'n' restrições mais. Masoquistas e suicidas acreditam que os seus atos são melhores pra si mesmos, o que não é verdade no olhar dos outros, mas isso não interessa ao economista, na perspectiva própria, eles estão fazendo o melhor para si mesmos. E lembrem-se que é um postulado, se aproxima bastante da realidade e, como postulado, não está sugeito ao falsificacionismo, mas sim à mudança caso queira inventar outra ciência. A economia comportamental ou behaviorista, adota o pressuposto de que a formação do que é melhor para si é influenciada por grupos, e mesmo que isso leve a erros, continua forte o pressuposto 2. É possível abrí-lo para essas outras restrições atuantes. Ademais, quanto mais frequentes e maiores os erros admitidos em um modelo com o pressuposto 2, mais se pode distanciar de algum equilíbrio, porém, observe que o equilíbrio não será assumido em nenhum dos meus cinco pressupostos.

pressuposto 3:

3. "Os recursos são escassos".

- A ciência econômica trabalha com recursos finitos. Esse é um postulado bem razoável, a Terra como uma esfera, é limitada em diâmetro e volume. O universo pode ser finito ou infinito, os físicos ainda investigam, mas para fins práticos da ciência econômica, o universo infinito não cabe em nossas necessidades mundanas. E economia é uma ciência mundana. No entanto, esse postulado não é tão óbvio quanto pode parecer a primeira vista, muito já se aprendeu sobre como interpretá-lo. Há recursos visíveis: terra, água, petróleo, minério, florestas e mais todos os bens tangíveis que podem ser transformados pelos homens e que são invariavelmente finitos. Porém, há recursos invisíveis também finitos. O conhecimento humano é o principal deles. O conhecimento humano é finito, podemos discutir até onde ele vai chegar no longo prazo, como medi-lo, etc. O que os modelos de Capital Endógeno fazem é supor um conhecimento humano infinito ou senão sempre crescente. Na idade média, a humanidade não sabia o que era petróleo, o conhecimento limitava essa exploração. Esses recursos, mesmo que existentes, eram irrelevantes. Pela via do conhecimento é possível que ampliemos os recursos disponíveis. Isso é o que modernamente chamamos de saltos tecnológicos.

pressuposto 4:

4. "Os recursos escassos podem ser repartidos".

- As diferentes frações e propriedades distintas dos bens determina os preços de troca (nominais ou não) responsáveis pela alocação de recursos. Os recursos são divididos de acordo com regras de propriedade. Porém os indivíduos são livres para negociá-las. Parte importante dos recursos não pode ser repartida individualmente ou no âmbito familiar o que se constituem bens comuns, que requerem um regime especial de trocas.

pressuposto 5:

5. "Cooperação para conflitos entre choque de preferências".

- A busca pelo melhor individual de uma pessoa pode se opor a busca da preferencial de outrem. Quando o direito de propriedade individual é ameaçado pelos interesses de segundos e terceiros, é necessária uma solução cooperativa, geralmente provisionada por uma terceira parte. Essa terceira parte podem ser leis, instituições, ou mesmo um acordo mútuo coordenado.

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Esses cinco simples pressupostos foram construídos de forma a deixá-los o mais livre possível de fortes afirmações não observadas na prática diária do comportamento das pessoas. Eles tem a pretensão de serem ahistóricos e universais, e isso é um ponto fraco e uma crítica que se pode fazer. Mas esses devem ser os propósitos de pressupostos científicos: devem ser atemporais e acríticos. Convido os leitores a fazer um verdadeiro esforço de validação. Aqui não cabe a falsificação lógica ("falseamento"), mas sim a rejeição por sentidos práticos ou a adequação (também por sentidos práticos) de alguns do pressupostos.

Observem que não há maximização, mas ela cabe dentro dos pressupostos. Aqui não há racionalidade maior do que procurar o bem para si mesmo (lembrando que esse bem para si mesmo envolve uma perspectiva mais ampla que inclui desde o altruísta até o masoquista). Não há equilíbrio parcial nem geral, mas ele pode ser incluído. Não há preços nominais, mas também nos os exclui. Enfim, é o consenso mais geral que pude formular até o momento. Não há função de utilidade, não há lei dos rendimentos marginais decrescentes, não há função de produção, lucros, custos não há nada disso. São pressupostos gerais mesmo!

Tenho consciência também de que essa maneira de organizar os pensamentos em pressupostos não é a única exclusiva, e nem é mais científica que as demais. A crítica de Hayek (1979) está incorporada, não estou simplesmente 'macaqueando' conceitos de outras áreas, apenas tentando estabelecer um core pragmático.

Para mim, as perguntas chaves são:

- Com esses cinco pressupostos é possível construir toda a economia teórica mainstream?
- Há mais pressupostos necessários?
- Há menos pressupostos necessários?
- Não seriam pressupostos vagos demais? (Aqui cabem provas, pois os teoremas e demais axiomas devem ser derivados desses pressupostos, isso requeriria uma agenda de pesquisa colossal de provas dos teoremas importantes da economia)
- Quais são os teoremas importantes da economia?

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Referências para consulta:

Blaug, M. "Metodologia da economia; ou como os economistas explicam". São Paulo: Edusp, 1993.

Backhouse R. E.; Boianovsky, M. "Whatever Happened to Microfoundations?". Encontro Nacional de Economia ANPEC, 2006.

De Paula, J. A.; Crocco, M.; Cerqueira, H.; Albuquerque, E. d M. "Conhecimento e interesse em Economia" Texto para Discussão Nº 178, cedeplar - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional, UFMG. 2002. http://www.cedeplar.ufmg.br/pesquisas/td/TD%20178.pdf

Economist, The. "It's mine, I tell you: Mankind's inner chipanzee refuses to let go. This matters to everything from economics to law". The economist print ediction. Jun, 19, 2008.

Friedman, M. The methodology of positive economics. In: Essays in positive economics. Chicago: University of Chicago Press, 1953.

Hayek. F. A. "The Counter-Revolution of Science: studies on the abuse of reason". 1979. Liberty Fund.

Klamer, A. “Conversas com economistas: os novos economistas clássicos e seus opositores falam sobre a atual controvérsia em macroeconomia”. Pioneira: São Paulo, 1988.

Klamer, A. McCloskey, D.; Ziliak, S. "The Economic Conversation" e-book interativo:
http://www.theeconomicconversation.com/

Krugman, P. "What undergrads need to know about trade?" American Economic Review, Vol. 83, No. 2, Papers and Proceedings of the Hundred and Fifth Annual Meeting of the American Economic Association, May, 1993.

Kuhn, T. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1989.

Martini, R. A. “Os programas de pesquisa lakatosianos e a metodologia da economia neoclássica:
contribuições e críticas”. Encontro Regional de Economia. 2008.
http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/eventos/forumbnb2008/docs/os_programas_de_pesquisa.pdf

McCloskey, D. "The Secret Sins of Economics. Prickly Paradigm Pamphlets (Marshall Sahlins, ed.) University of Chicago Press, 2002.

Pin, C. "Preços e Livre Arbítrio: da ordem sensorial à ordem espontânea em Hayek". Dissertação no mestrado em economia da Universidade de Brasília, UnB, 2009.
http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/4309/1/2009_CedricPin.pdf

Popper, K. "The Logic of Scientific Discovery" Routledge, 1977.

Ward, Benjamim. O que há de Errado com a Economia? Rio de Janeiro; Zahar Editores, 1975.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Lições Básicas de Economia

Um pouco de lições básicas de economia para a população em geral seria bom para evitarmos de ouvir argumentos indignados como o desta senhora que apararece no Jornal da Record e evoca até o nacionalismo para dizer que os estacionamentos abusam nos preços cobrados.

O Jornal está com uma interessante matéria para essa semana discorrendo sobre a falta de vagas em São Paulo, o que é similar para várias grandes cidades brasileiras. Um problema recente em São Paulo, que foi o principal tema da matéria de hoje (08/06/10), trata da redução do número de vagas permitidas nos acostamentos nas ruas. Essa medida visa facilitar o fluxo de veículos, já que em várias ruas secundárias o número de veículos estacionados no acostamento estreita bastante a passagem.

Essa medida no entanto taz uma série de incovenientes: as pessoas passaram a parar mais longe em áreas residenciais incomodando moradores, comerciantes perderam clientes que estacionavam em ruas e, principal ponto, o valor das diárias e da hora em estacionamentos privados se elevou mais de 3 vezes.

Essas medidas trazem muita indignação claro, pois alteram direitos estabelecidos e ocorre o que os economistas chamam de reestabelecimento das dotações. Ainda assim não se pode reclamar da oferta e da procura, evocar princípios morais para os preços (tal coisa não existe). Até porque a situação do volume de carros uma hora se tornará insuportável, o que significa que as pessoas terão de deixar, cada vez mais, seus carros nas garagens de casa (o que tem começado a se escassear também, dado o número de pessoas que possui mais de um veículo).

Segundo dados da reportagem o número da frota circulante de São Paulo é de pouco mais de 5 milhões de veículos. Segundo o sindicato de estacionamentos, o número de vagas disponíveis é um pouco maior que um milhão. Se a demanda é maior do que a oferta os preços sobem. Esses preços mais altos para se estacionar o carro sinalizam que os carros em excesso prejudicam o trânsito, quem quiser usar ainda o carro nos horários de rush e estacionar nas regiões centrais vai ter de se dar o luxo de pagar mais por isso, ou então (o que dá no mesmo, mas de forma não monetária) fazer como alguns entrevistados que chegam no centro às 4:30 da manhã para garantir uma vaga na rua (pegar um lugar na fila cedo tem um preço!).

Se for adotado o que alguns consumidores indignados querem, qual seja, um teto para o preço dos estacionamentos, o tiro vai acabar saindo pela culatra pois a oferta de vagas não irá crescer e as pessoas continuarão a usar muito os carros continuando a congestionar as vias, será mais barato, mas irá continuar faltando vagas do mesmo jeito, no futuro faltarão mais vagas ainda. Do contrário, com a solução de mercado, é possível que pelo menos por uma vez você possa ir de carro ao centro em um dia em que considere que isso lhe irá ajudar muito. Nas outras ocasiões é melhor usar o ônibus, metrô, bicicleta ou se mudar para perto. Para isso teriam de se melhorar as condições de transporte público e de moradia, mas isso já são temas para outras matérias que tentarei abordar aqui mais tarde. Link da reportagem.

sábado, 27 de junho de 2009

The Economic Conversation

Oque é isto?! É um livro texto?! É um blog?! Diálogos de Platão?!

Não, é o novo projeto de McCloskey e companhia.

Na matéria do valor de última sexta-feira houve uma discussão sobre o ensino de economia nas universidades. Já de algum tempo existem críticas de que a economia está perdendo o pé da realidade e se tornando uma matéria autista inatingível para a maioria dos alunos e pouco ou nada relacionada à realidade.

Essa crítica está relacionada ao Manifesto da Economia Autista, em que alunos da França reclamaram do extremo desequilíbrio do curso de economia, com peso demasiado para matérias exatas e deixando para trás a história e o pensamento econômico que são, sem dúvida, importantes para um entendimento melhor e mais completo e amplo do objeto de estudo de que trata a ciência econômica.

A crítica é em alguns pontos válida, tanto que cabe a nós professores de economia sempre tentarmos o diálogo com a realidade e fazer com que os modelos tenham realmente aplicação. De outra parte as críticas não são justas. Basicamente, os modelos e muita parte da economia ganhou não exclusivamente por um feitishismo, mas sim porque servem de fato para compor o raciocínio e elaborar respostas à problemas reais.

Foi com o intuito de aplicar de melhor maneira modelos complexos de forma simples e didática que busquei reformular os cursos de microeconomia A1 e Economia A2 que a mim couberam ministrar nesse semestre que se finda. Creio que em grande parte foi possível mostrar como os modelos estão intrisecamente relacionados à realidade, como eles ajudam a pensar questões novas e não resolvidas.

Infelizmente, em apenas um curso acaba não sobrando tempo para dialogar com a história do pensamento econômico, isso cabe a uma mudança da grade curricular caso esteja realmente faltando. Também nem sempre é possível explorar todas as extensões, de modo que modelos demasiadamente simples acabam se tornando ingênuos demais e parecem não aplicáveis de imediato.

Para isso é preciso um pouco de esforço do aluno. No entanto para nos ajudar McCoskey, Klamer e Ziliak estão com essa proposta de livro internáutico para discutir coisas que outros livros textos não discutem, vale a pena dar uma olhada, parece bacana pois são de economistas importantes na área de estudo em metodologia e retórica da ciência econômica.

McCloskey é um dos principais nomes e estudiosa dos clássicos de Adam Smith e dos becos sem saída da teoria clássica e neoclássica.

Arjo Klamer é o autor de um best-seller em economia: "Conversando com Economistas", um excelente livro onde o autor entrevista autores das mais diversas visões econômicas, é um aprendizado e tanto ler e se sentir ouvindo os caras. Esse livro foi o pontapé inicial para as pesquisas posteriores de Klamer na área da retórica do fazer ciência econômica.

Stephen Ziliak é o único que conheço pouco ainda, consta que sua área de pesquisa são desigualdes sociais de raça e de renda.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Qualquer semelhança é Mera Coincidência?

Caros leitores, creio que há muita relação deste texto sobre descobretas novas da física e interpretação de teoria também da economia. Em economia também existe o problema da agregação do capital. E as propriedades emergentes de nosso modelos atomisticos.

É um texto legal para se ver aquelo que Lakatos chama de Programas de Pesquisa.

o link é este aqui, segue o texto:

Idéia reemergente
Debate sobre limites do reducionismo na ciência ganha fôlego após estudo sobre simulação de átomos

IDÉIA REEMERGENTE

Folha de S. Paulo 12-10-2008

MARK BUCHANAN
DA "NEW SCIENTIST"

Uma das grandes metas da ciência é explicar cada aspecto da natureza em termos de leis fundamentais simples. Mas será que é possível? Um grupo de físicos alega ter obtido uma evidência de que algumas coisas simplesmente não podem ser computadas, e que a natureza pode ser mais do que a soma de suas partes.

A idéia do reducionismo, uma ferramenta-chave em ciência há séculos, sustenta que tudo na natureza pode ser compreendido eventualmente ao se conhecer suficientemente bem as suas partes. As leis da dinâmica dos fluidos, por exemplo, podem ser derivadas das leis mais profundas sobre movimento de átomos e moléculas, que por sua vez seguem princípios da física quântica.

Em 1971, o físico Philip Anderson mostrou que poderia haver um problema com essa abordagem. Ele sugeriu que alguns sistemas podem ser mais do que a soma de suas partes. Haveria uma "emergência" -a noção de que tipos importantes de organização podem emergir em sistemas com muitas partes interagindo entre si, na qual as leis não derivam das propriedades das partes. Se for assim, mesmo o conhecimento perfeito da física em um nível seria inadequado para compreender a organização em níveis superiores. Desde então, seguiu-se um debate.

Agora, o grupo de Mile Gu, da Universidade de Queensland em Brisbane (Austrália), alega que pode ser possível provar a idéia de Anderson. Eles estudaram um esquema matemático básico chamado modelo de Ising, usado para descrever como o magnetismo surge no ferro e em outros materiais a partir da organização coletiva de seus átomos.

Para ter uma idéia do modelo de Ising, imagine uma grade tridimensional de átomos. Cada átomo age como se fosse um pequeno imã para os outros ao redor. Ele adota uma orientação que depende das forças entre os átomos. Isso reflete o que acontece em materiais do mundo real, no qual átomos adotam padrões diferentes de orientação que dependem das forças atômicas. No ferro, por exemplo, os átomos às vezes apontam em uma direção similar -fazendo o material tornar-se magnético como um todo- enquanto em ligas metálicas o padrão é mais complexo.

Usando o modelo, o grupo se focalizou na questão sobre se o padrão que os átomos adotam sob vários cenários, como o estado mais baixo de energia, pode ser calculado a partir do conhecimento dessas forças. Eles descobriram que, em alguns cenários, o padrão de átomos não podia ser inferido dessa maneira -mesmo dispondo de poder computacional ilimitado. Em jargão matemático, esse sistema é considerado "formalmente indecidível".

"Nós conseguimos encontrar diversas propriedades que eram simplesmente desacopladas das interações fundamentais", diz Gu. Mesmo algumas propriedades realmente simples do modelo, como a fração de átomos orientados em certa direção, não pode ser computada. Uma versão preliminar do estudo está na internet (www. arxiv.org/abs/0809.0151).

O resultado, afirma Gu, mostra que alguns dos modelos usados por cientistas para simular sistemas físicos podem, na verdade, ter propriedades não relacionadas com o comportamento de suas partes. Isso, em contrapartida, ajudaria a explicar por que nossa descrição de natureza opera em tantos níveis, em vez de funcionar a partir de um só. "Uma "teoria de tudo" pode não explicar todos os fenômenos naturais", diz Gu. "A compreensão real pode exigir mais experimentos e mais intuição a cada nível."

Atoleiro filosófico

Alguns físicos acreditam que o trabalho de Gu confere uma carga científica promissora à delicada questão da emergência -que tende a se imobilizar num atoleiro de argumentos filosóficos. John Barrow, da Universidade de Cambridge, considerou o resultado "realmente interessante", mas diz crer que um dos elementos da prova requer mais estudos. Ele ressalta que Gu e seus colegas derivaram seu resultado a partir do estudo de um sistema infinito -em vez de usar um que fosse grande, mas de tamanho finito, como a maioria dos sistemas naturais. "Então, não está totalmente claro o que os resultados deles significam para sistemas finitos reais.

Gu concorda com o argumento, mas afirma que não era esse o objetivo de seu grupo. Ele também argumenta que as leis matemáticas idealizadas, que cientistas usam rotineiramente para descrever o mundo, freqüentemente se referem a sistemas infinitos. "Nossos resultados sugerem que algumas dessas leis provavelmente não podem ser derivadas de princípios simples", afirma.

Jogos, Instituições e Sociedade

Vez ou outra os cientistas sociais reavivam a importância de se analisar as instituições para explicar diferenças entre sociedades. Tal necessidade surge porque é preciso identificar as regras pelas quais uma sociedade se rege. O processo é, portanto, o mesmo que ocorre em outras diversas áreas do conhecimento humano: primeiro a observação permite a identificação de padrões, depois de identificados, os padrões servem para a construção de raciocínios lógicos.

Um dos mais recentes avanços na área de tecnologia administrativa é o desenvolvimento de softwares que auxiliam os humanos na tomada de decisões. Por enquanto, tais softwares auxiliam apenas a tomada de pequenas e relativamente simples decisões, mas esse campo ainda tem muito que evoluir, sua evolução será possível a medida que forem identificadas regras que permitem os computadores tomarem decisões acertadas.

O avanço da inteligência artificial passará pela identificação de padrões humanos de comportamento. Não é tão impossível quanto parece a primeira vista. Alguns softwares desenvolvem a chamada programação heurística para simularem o raciocínio humano. Jogadores de xadrez computadorizados utilizam-se desse princípio. Eles processam as informações em pequenas partes, e as gradativas combinações das informações do jogador adversário permitem o computador criar sua própria estratégia de ação.

Tais computadores não são imbatíveis, a mente humana é também lógica, no entanto, uma característica do raciocínio humano é que existe um limite para sua extensão. Os melhores enxadristas profissionais são aqueles que conseguem visualizar o desdobramento da partida dez ou mais jogadas a frente. Porém, raramente conseguem visualizar o desdobramento de uma partida inteira (depende da força de seu oponente).

Jogos são exemplos interessantes para abstrairmos as regras da sociedade. Todo jogo possui regras a serem seguidas por seus participantes e seguir as regras permite o correto desenvolvimento de uma partida. Uma das mais interessantes analogias que pode-se usar para descrever o funcionamento da sociedade capitalista é a que compara a economia com o futebol. Em comparação com o xadrez existem muito mais elementos: vários participantes, comissão técnica, trio de árbitros, torcida e, principalmente, muita emoção.

Um jogo de futebol é basicamente dois times lutando em busca do gol. Cada time procura maximizar seu saldo de gols. No aspecto individual, cada jogador pretende fazer o melhor para o seu time, conseguir o máximo de gols a favor e o mínimo de gols contra. No fundo a atuação de cada um dos jogadores é a sua satisfação individual, “cada um procurando o melhor para si mesmo”. Tal corolário não nos leva a um individualismo extremo, afinal, em um time cada jogador se complementa, há uma divisão de tarefas.

Pode se pensar que os interesses em relação aos jogadores do outro time são conflitantes, entretanto, isso se estende até certo ponto. Em última instância, o benefício maior é o jogo. Por isso são tão comuns as peladas país afora, amigos se reúnem para disputar uma partida, não importa muito em qual time vão estar. O interesse nesses casos está no benefício da partida e não no ganho de um time.

A característica mais humana dos jogos de futebol se apresenta quando os ânimos se exaltam. Em uma partida é comum surgirem conflitos, por isso são necessários os árbitros. Em partidas amadoras os árbitros são geralmente dispensados; há uma relação de confiança prévia, e que muitas vezes poderá ser confirmada em partidas posteriores. O jogador pouco confiável não será chamado para a próxima partida e essa é a sua principal punição.

Em jogos profissionais é o arbitro que impede que um time saia quebrando o outro para conseguir vencer a partida; afinal, os times se enfrentam poucas vezes em um campeonato e como esse tipo de jogo pode maximizar o resultado, é uma estratégia viável, no entanto, não permitida.

Os árbitros e os bandeirinhas são as autoridades da partida. São eles que garantem o seguimento das regras, são como o judiciário. Estão sujeitos a erros e por isso se levanta a questão de quais recursos tecnológicos os podem auxiliar.

A comissão técnica se compara ao executivo, seu objetivo é, aceitando as regras, conduzir seu time a vitória. Para isso o técnico tem que conhecer as melhores táticas para o desenvolvimento do time, saber qual o melhor momento para aproveitar as características de cada um de seus jogadores, ter sentimento para identificar quando alternar titulares e reservas, dar chance a todos e, por fim, escolher sempre os melhores.

As federações nacionais e internacionais fazem a parte do legislativo, cuidam das regras do jogo satisfazendo os anseios da sociedade futebolística e preservando o futebol como instituição.

Regras são o fundamento básico para desenvolvimento lógico, mas não previsível, de uma partida. Assim deve ser com os cientistas sociais. Devem identificar quais são as regras em sua sociedade e desenvolver argumentos. As sociedades mudam e assim mudam também as regras. Os cientistas devem identificar essas mudanças e mudar suas conclusões a partir delas. O próprio jogo de xadrez mencionado é um jogo bastante teórico, no entanto, quando as peças são simplesmente aleatoriamente colocadas nas duas primeiras e duas últimas fileiras quase todas suas seculares teorias caem por terra. Identificar as instituições e saber quais são as condições que contornam nossas escolhas é tarefa importante a não ser esquecida por alguém que queira estudar a humanidade.

Ou Isto ou Aquilo

Ou guardo o dinheiro

e não compro o doce.

Ou compro o doce e gasto
o dinheiro.”

“Ou isto ou aquilo:
ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia
inteiro!”

Por vezes admiro como a epígrafe acima não foi escrita por uma economista. Pelo contrário, os versos provêm da poetisa Cecília Meireles. Trata-sede um trecho do conhecido poema infantil “Ou Isto ou Aquilo” retratando o que desde criança percebemos, que a vida é uma infinidade de processos. A todo o momento nos deparamos com uma escolha e o que não deixamos de fazer é decidir.

Lendo todo o poema, percebemos que apenas a estrofe acima aborda as escolhas materiais, todas as outras pertencem ao não-material do mundo. Faz sentido ser dessa forma, o mundo não econômico é bem maior; no contexto do poema, a economia se resumiria a apenas dois versinhos. No entanto, enganam-se aqueles que acham que a parte de fora, presente no poema e na realidade, nada tem a ver com o mundo econômico.

Os processos de escolha com que nos deparamos pela vida vão desde os mais simples como decidir a que horas acordar, o que fazer pela manhã, até escolhas mais complexas como a escolha de uma profissão ou a decisão de se casar e ter filhos (geralmente estas três últimas são decisões mais complexas porque envolvem longos períodos de tempo à frente). Dessa forma, encarando a economia de uma forma mais ampla, como um dos procedimentos relevantes para a escolha dos indivíduos, podemos enfim entender um pouco como aspectos não-materiais da vida corriqueira também permeiam o mundo econômico.

Uma grande parte dos profissionais em economia ainda vê estas considerações acerca da vida cotidiana como extensões bizarras da ciência econômica, muito embora, elas não sejam essa excrescência que aparentam ser em um primeiro relance. Podemos remontar até aos economistas clássicos como Smith, Mill e Marshall, os quais possuíam extrema sensibilidade para tratar da economia política, sempre atentos às influências externas e considerações de ordem psicológica, para ver que a posição de defesa de muitos não é justificável. É lógico que a economia não pode reivindicar direito exclusivo sobre a análise criteriosa do processo de escolha, porém, não pode deixar suas nuances não-monetárias de lado. Separar conjuntos determinantes é sempre importante, mesmo, sabendo disso, os economistas acima nunca relevaram a importância dos fatores externos à teoria.

A coisa toda de decisão econômica racional sobre casamentos, escolha profissional e número de filhos que uma família decide ter foi posta explicitamente por Gary Becker, sobre estes assuntos seus trabalhos acadêmicos de referência são Becker (1964,1974 e1990). Mais acessível ao leitor comum é a sua leitura no prêmio Nobel de 1992.1 Os resultados de Becker são simples e elegantes, são impressionantes as conclusões e interpretações dos dados que podemos realizar com as ferramentas fornecidas por este autor. Basicamente, os trabalhos que Becker fez procuram mostrar que as escolhas que as pessoas fazem durante sua vida são racionais; no sentido estrito ao qual os economistas se referem à racionalidade: maximizar fluxos temporários dadas determinadas funções sintetizadoras do comportamento.

Ocorre, então, nos modelos à la Becker um conhecido defeito: apesar de algumas complexas soluções analíticas a que ele pode nos levar, suas suposições são por demais simplistas e talvez por demais estreitas. Isto se torna explicito ao nos fazermos a pergunta: “Quem de nós conhece todos os acontecimentos e nuances do seu horizonte temporal de decisão, ou seja, o futuro de nossa vida?”. Bem, “ninguém!”. Apenas esta já é uma constatação bastante desconfortável, a ponto de nos permitir desacreditar na racionalidade que compõem nossas decisões.

Entramos, então, a partir de agora na seara de Herbert Simon, outro grande economista. Simon estava preocupado com as conhecidas, porém veladas, restrições à racionalidade perfeita. Muitos destacam, ainda hoje, que o tema da chamada racionalidade limitada é considerado tabu para os economistas. O que seria este conceito? E porque é um tabu?

Simplificadamente falando racionalidade limitada é quando consideramos que os agentes estão longe de serem oniscientes. Simon (1978) enumera um conjunto de possibilidades onde há sérios limites à capacidade computacional das pessoas. A proposta de Simon é então o estudo observacional do comportamento micro das pessoas e grupos, onde poderíamos inferir uma rotina que as pessoas ou firmas usam para satisfazer seus objetivos propostos. Uma das principais conclusões de Simon é de que indivíduos e firmas procuram antes se satisfazer ao invés de maximizar. A satisfação é uma medida subjetiva. A teoria microeconômica tradicional a evita afirmando que os agentes trabalham antes de seu ponto de saciedade. Quando se incorpora satisfação é essencial fazermos as perguntas: “O que seria satisfação?”. “Como medi-la?”. “Ela muda entre pessoas e firmas?” “Como?”. “Porque?”.

O tema ainda é tabu porque tratar das situações diferentes mencionadas acima dá margem à inclusão de diversas racionalidades ou rotinas e então é preciso cuidado para estas não se tornarem contribuições ad hoc à teoria econômica. Embora caiba uma boa dose de bom senso, o adhociscmo é comportamento a ser evitado por conta de suas explicações para tudo e para todos.

Considerando o alerta de Simon, tratamos, em economia, de apenas uma casquinha do que formam nossas decisões cotidianas. Para algumas situações o processo de escolha desenvolvido pela análise econômica formal é suficiente. Por exemplo, quando vamos a feira é fácil maximizar: temos o dinheiro disponível para a feira da semana, os preços dos produtos e a cesta de pratos escolhida para cozinhar durante a semana, maximizar aqui é simples. Muito embora, caibam ainda uma série de considerações, quanto mais experiência em feira nós temos, maior será nossa capacidade de discernir a qualidade e o período sazonal em que devemos fazer certos pratos.

Para uma infinidade de outras situações maximizar se torna tarefa difícil. Ainda mais quando levamos em consideração um campo que os economistas não se dispõem a entender: o campo dos sentimentos. Como tudo tem limite, esse seja, talvez, o maior limite para a continuação do desenvolvimento econômico que foi esboçado neste texto. Entretanto, não entender o todo não significa não contribuir em parte, nessa fronteira do conhecimento podemos destacar os insights dados por Kahneman nos estudos sobre a influência dos aspectos cognitivos psicológicos que influenciam a tomada de decisão.

Diversos outros campos novos exploram os limites da ciência econômica, ocorrendo intensa interdisciplinaridade: Política e Sociologia se unem à economia para análise institucional; Biologia e Física à analise da economia evolucionista, buscando explicar o porquê das aglomerações no espaço; a Programação Computacional e a Estatística (velha aliada) explorando novos e sofisticadas formas de mensuração e testes. Como sempre, a proximidade que temos com o evento, essa efervescente interdisciplinaridade, não nos permitirá concluir o que daí sobrevive, porém, podemos confiar que haverá certamente bons frutos.

A economia, portanto, está na nossa vida não apenas no preço da gasolina que sobe, no déficit orçamentário do governo, na previdência ou efeito dólar/importações. Ela está presente a todo o momento no aspecto micro, desde de que, quando crianças, começamos rudimentarmente a pensar. Como bem nos ensinou Cecília Meireles.


Referências:

Becker, G. 1992. “The Economic Way of Looking at Life”. Nobel
Lecture, December 9, 1992.
http://nobelprize.org/economics/laureates/1992/becker-lecture.html

Becker, G. 1974. “A Theory of Social Interactions”. Journal
of Political Economy
, vol. 82. pp. 1063-1093.

Becker, G. 1970 [1964]. “Human Capital: A theoretical and Empirical
Analysis with special reference to Education”. National Bureau
of Economic Research. New York.

Becker, G, Murphy, K. e Tamura, R. 1990. “Human Capital, Fertility and Economic Growth” Journal of Political Economy, vol 98, pp. S12-17.

Kahnemann, D. e Tversky, A. 1979. “Prospect Theory: an analysis of decision under risk”, Econometrica vol. 47 pp. 263-291.

Kung. Vetenstapienakadamien, The Royal Swedish Academy of Sciences.
2002. “Advanced Information on The Prize in Economics Sciences
2002, 17 December 2002
.
http://nobelprize.org/economics/laureates/2002/press.html

McCloskey.D.
2002. “The Secret Sins of Economics”. Prickly Paradigm Press
. Chicago.

Simon, H. 1978. “Rational Decision-Making in Business Organizations”. Nobel Memorial Lecture, 8 December 1978. http://nobelprize.org/economics/laureates/1978/simon-lecture.html

Simon,
H.
1959. “Theories of Decision-Making in Economics and Behavioral Science”. American Economic Review, vol. XLIX June, no. 3 pp.253-283

1
Becker (1992). “The Economic Way of Looking at Life”.
http://nobelprize.org/economics/laureates/1992/becker-lecture.html