quarta-feira, 8 de abril de 2026

Mais uma greve nas federais, é sério?!

Victor Maia Senna Delgado*
(Presidente do colegiado do curso de Ciências Econômicas da UFOP) 

originalmente publicado em 23/03/2026 

Com uma certeza maior do que aquela dos anos bissextos do calendário Gregoriano (sob o qual vivemos desde 1582) a Universidade Pública brasileira se encontra, novamente, em greve. O motivo dessa vez é o não cumprimento integral do acordo 11/2024 da greve de 2024. Os Técnicos Administrativos da Educação (TAEs) alegam, entre outras coisas, que o reconhecimento de saberes e competências foi alterado e está muito restritivo. Este reconhecimento é uma gratificação dada aos técnicos que possuem maior grau de formação acrescentada aos salários. Esse adicional por capacitação, bem como as 30h semanais de trabalho pretendidas, não serão alcançadas com o recém-aprovado PL 6170/2025, referendado pela câmara nacional de deputados em 6 de fevereiro de 2026. Bom, neste texto defenderei algo além do que as próprias organizações sindicais representantes dos TAEs defendem: a total equiparação salarial entre as carreiras de técnicos e professores.

A reivindicação da equiparação salarial entre as carreiras parte da premissa de que se duas funções são perfeitamente complementares, elas devem repartir os ganhos. Se o trabalho dos professores é impossível sem o dos técnicos e vice-versa, os dois contribuem igualmente para a produtividade social. Sendo assim, é muito importante que o trabalho dos TAEs seja reconhecido e valorizado. São profissionais que ajudam a universidade a viver e funcionar em sua área meio: trâmites burocráticos, matrículas, concursos públicos, reuniões, atas, defesas, folha de pagamento, emissão de diplomas e uma série de serviços essenciais que os TAEs prestam para a universidade. Os técnicos costumam saber do regimento e das regras administrativas da universidade em muitos casos mais do que os professores. Em suma, tarefas e trabalhos de extrema importância.

Lanço a pergunta: os TAEs dão realmente a devida importância ao seu trabalho? É sabido que uma forma de se valorizar é não estar presente o tempo todo (coisa que as pessoas, cada vez mais egoístas, parecem nos fazer lembrar 100% do tempo na atualidade, exceção guardada para as infames redes sociais). É isso que parece motivar as greves e paralisações: “não façamos o nosso trabalho e eles perceberão a nossa importância”. Diversas categorias profissionais podem utilizar deste mesmo artifício. De fato, usam. O que muda entre elas é o tempo que a população leva até notar a ausência, quanto mais essencial, mais urgentemente essa ausência é sentida.

Até o momento, falei do sentido coletivo das carreiras e das profissões, porém, nelas residem os indivíduos. No plano individual a coisa é diferente. Eu tive um chefe que gostava de resumir: “ninguém é insubstituível!” Como economista novato, essa frase colou na minha mente de uma maneira paradigmática e de certa forma um tanto cruel. Afinal, na luta diária, há também os “imprescindíveis” de Bertolt Brecht. Estes dois pontos não se conciliam facilmente, mas no mundo do trabalho a resposta é relativamente simples: “quando alguém pode fazer seu trabalho sem muito esforço ou capacitação e existe, concomitantemente, a facilidade de obter pessoas aptas a qualquer tempo, seu trabalho é facilmente substituível”. O contrário ocorre para posições muito específicas. Um ponto importante a se discernir é se a especificidade é verdadeira ou artificial.

Para a maioria dos servidores públicos no Brasil essa especificidade é do tipo artificial, é garantida por listas de aprovados restritas e por custos de realização de novos concursos muito altos (ainda mais se forem em uma frequência muito grande). Sem falar que, embora não seja vitalício, o cargo dos servidores concursados é bastante estável. É bem-sabido que não ter o fantasma da demissão ou do corte de salário (por dias não trabalhados) pairando por suas cabeças é um incentivo para o trabalho em prol da coisa pública. Na prática, porém, isso faz com que em boa parte dos casos sejam consideradas primeiro as causas pessoais e só depois o interesse público.

Não se trata de defender a demissão de servidores públicos ou o corte de salários pelos dias parados. A proteção jurídica, política, religiosa e ideológica do servidor público constitui um progresso social, mas não pode se tornar uma justificativa para a ineficiência. No entanto, a realidade que observo nas universidades públicas brasileiras é marcada por uma produtividade muito baixa. Digo isso por conta de 26 anos de experiência dentro dela. Já vivi um número realmente incontável de greves, se elas fossem fonte indubitável de melhorias, a UFMTE – Universidade Federal de Marte – já teria sido criada há muito tempo com tanto avanço proporcionado por greves e paralisações. Mas o que vemos é a universidade brasileira às voltas das dificuldades mais elementares.

Ao longo desses anos todos, dou duas provas cabais de que os TAEs estão sendo pouco a pouco substituídos (longo prazo, camaradas!). Primeiro, estão sendo substituídos por terceirizados, reclamam tanto deste processo, mas o ponto é que, ao contrário deles, os terceirizados não deixam a universidade parar e alguns deles trabalham tanto quanto os técnicos, tais substitutos merecem, sim, muitos aplausos por deixarem a universidade brasileira de pé. Segundo, pelos próprios professores. Nessa semana recebi um aviso interno da seção de ensino de que o nosso calendário continuará normal. Com os TAEs parados fica a pergunta: “quem eles querem que faça este trabalho?” 

É claro que a resposta não virá de modo explícito, mas implicitamente é… “você, amigo professor, amiga professora…” Com todo o respeito a todas as profissões, mas isso é o mesmo que colocar um físico de partículas para varrer o chão do departamento. Vai continuar trabalhando com partículas, mas agora sua preocupação será com as de outro tipo, as de sujeira. Lembre-se “ninguém é insubstituível”, nem mesmo nosso professor ou professora de partículas subatômicas, mas ter um mínimo de racionalidade e divisão do trabalho na preservação das competências individuais é um mínimo que uma sociedade funcional pode almejar.

Guiando-me para uma conclusão, ressalto que venho de uma universidade na qual a necessidade de mais técnicos é gritante de tão urgente. Por alto, estimo que deveríamos ter o dobro de TAEs que, de fato, temos. Com isso percebo o quanto o trabalho da categoria é essencial. Para que eu possa fazer meu trabalho da melhor forma, é essencial ter o trabalho deles. Merecem todo o respeito pelo que fazem e a devida valorização, inclusive a salarial. Entretanto, o que observo é que a própria categoria não se valoriza, param com uma frequência que considero demasiada (mesmo sem greves), esperam trabalhar 30h semanais em uma realidade muito distinta do mundo da maioria dos docentes (que se dedicam a trabalhos da universidade para além da docência, i.e. pesquisa, extensão, orientação, palestras, etc.) e também dos demais trabalhadores brasileiros (30h semanais é algo que só válido mesmo em alguns rarefeitos serviços públicos). A turma da proposta pela derrubada do 6x1 sonha com a escala de trabalho atual dos TAEs, sem a mudança. Por mais que eu tenha algumas críticas também ao meio docente, vejo o conjunto dos professores ao menos mais ciosos do seu dever funcional.

Outro dia, na universidade vi numa camiseta a frase do Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Amar talvez seja fácil, o difícil é mudar as coisas, não sei bem como propor melhorias, pois vira o dilema ovo-galinha do que veio primeiro. Neste caso, o que é preciso vir primeiro? Uma mudança de atitude e uma valorização coletiva da carreira dos TAEs (“de dentro para fora”)? OU um voto de confiança primeiro, ou seja, ajusta-se uma nova carreira TAE, mais equiparada e dando um choque salarial positivo, mas com um plano de retirada daqueles que de fato não honram o compromisso futuramente? Sinceramente, não sei, não é algo fácil.  

Acrescento como evidência anedótica final que vários TAEs durante a greve marcaram o “aviso de férias” no gmail (o oficial da universidade em que trabalho). Ora, ou é greve, ou são férias, as duas coisas não podem ser confundidas. Alguém tem que avisar à Alphabet (dona da Google) que a universidade brasileira, uma cliente importante, precisa de “aviso de greve”, não “aviso de férias”. Isso denota como estes são mundos muito distintos. Será que alguma mente brilhante da universidade brasileira não pensou até hoje em nenhuma outra forma de fazer reivindicações justas que não a paralisação por mais uma maldita greve?
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As opiniões constantes neste texto são do autor e não refletem o posicionamento da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) quanto a este assunto, nem do Departamento de Economia desta Universidade (DEECO/UFOP) ou do seu colegiado.


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